Victor Vaughan, técnico de PA e produtor

Estamos de volta e nada melhor do que uma matéria especial. Ainda mostrando os bastidores do mercado do entretenimento brasileiro, esta coluna pretende alargar o foco das matérias e fazer entrevistas com um direcionamento maior para as equipes técnicas de bandas, locadoras e eventos.

Para iniciarmos este novo ano de entrevistas, elegemos Victor Vaughan, que atualmente é técnico de PA e produtor técnico da banda Baiana System.

 

Gigplace – Victor Vaughan, fale um pouco da sua formação, conte um pouco da sua história no mundo do áudio?

Victor Vaughan – Minha história no mundo do backstage começou bem cedo, através do meu pai, José Roberto Think, que é profissional da área. Sempre que possível, o acompanhava em seus trabalhos, como em shows e na TV Globo São Paulo, onde atuou por 10 anos. Ali pude ter contato também com o universo do broadcasting. Devo muito a ele as experiências e os conhecimentos adquiridos.

Basicamente sou um profissional autodidata, não fiz cursos de fundamentos ou introdução ao áudio. Aos 16 anos, mudei de São Paulo com a família para Salvador e comecei a trabalhar como técnico operador de som em uma casa de shows local. Nessa época, contei com um acervo muito rico cedido por Martin Buffer, técnico de gravação e masterização do WR Studios. Esse upgrade foi um grande divisor de águas na minha profissionalização no mercado de shows ao vivo. A partir daí, iniciei uma incansável rotina de estudos e pesquisas, dessas que duram a vida inteira. Nessa busca por conhecimento, comecei a participar de diversos cursos específicos e workshops em São Paulo e Salvador, e não menos importante, muito pelo contrário (risos), conto também com a experiência adquirida na estrada.

Gigplace – O Vaughan do seu nome é um apelido. Como ele surgiu?

Vaughan – O Vaughan surgiu na infância, quando eu estava aprendendo a tocar guitarra e conheci o trabalho do guitarrista Stevie Ray Vaughan. Passei alguns anos tentando reproduzir fielmente cada nota de cada música dele (fiquei na tentativa mesmo) (risos). Quando cheguei a Salvador, ainda utilizava esse apelido em redes sociais e vi nele algum diferencial para não ser “mais um” dentre tantos, afinal não conhecia absolutamente ninguém na cidade e, da mesma forma, ninguém conhecia o meu trabalho, então o mantive. O Vaughan acabou virando uma marca pessoal e hoje vejo que a ligação do nome com Stevie Ray ficou lá na adolescência, pois estou no processo de construção da minha história e o apelido já faz parte disso. Meus amigos e colegas de profissão me chamam de Vaughan e inclusive já chegaram a chamar o meu pai de Sr. Vaughan (risos).

Gigplace – Como surgiu o convite para assumir o PA da banda Baiana System, banda com a qual você vem trabalhando atualmente?

Vaughan – Na verdade, iniciei como sub do técnico anterior a convite de Seco, baixista da banda. Pouco antes do lançamento do disco Duas Cidades, vínhamos de uma maratona de shows desde o início do verão 2015/16, e após o carnaval, onde fui pela primeira vez responsável técnico do Navio Pirata, conversamos a respeito do disco que seria lançado em abril e sua respectiva tour. A partir daí, assumi minhas funções dentro do grupo oficialmente.

Gigplace – O BaianaSystem é um grupo inovador em muitos aspectos, quais os diferenciais em se trabalhar com uma banda assim?

Vaughan – Me considero um profissional de sorte. Tirando algumas poucas experiências desagradáveis, sempre fiz parte de projetos onde a música e a arte eram mais importantes, acima de tudo, principalmente do dinheiro. Sou totalmente contra a cultura do “matar cachê”; isso faz com que sejamos profissionalmente desvalorizados. Todos nós que somos prestadores de serviço, deveríamos iniciar um trabalho buscando sempre evoluir e somar o nosso serviço ao trabalho em questão. O cachê seria, digamos assim, a consequência do resultado do seu empenho no trabalho, somado ao quanto você investiu para chegar onde está, em dedicação e capacitação, etc. Dessa forma, agregamos reconhecimento à remuneração e à liberdade para desenvolver o nosso trabalho com extrema confiança por parte de quem nos contrata. Se há condições favoráveis para desenvolver o nosso trabalho, isso reflete de forma positiva no resultado obtido. Cada um na equipe é peça fundamental para girar a engrenagem como um todo, e isso é muito claro dentro do grupo. Esse seria um dos grandes diferenciais em se trabalhar no Baiana System.

Gigplace – Nos últimos carnavais de Salvador, houve algumas mudanças, uma delas no tamanho dos trio, que diminuíram de tamanho, porém mantendo a qualidade e potência. Explique esse fenômeno.

Vaughan – Para explicar o que está acontecendo no carnaval baiano, vou citar um trecho da reportagem do site http://www.bahianoticias.com.br na terça-feira (28/02/17), onde o presidente da Saltur menciona o Navio Pirata como “exemplo a ser seguido”. (Navio Pirata foi o trio elétrico utilizado pela banda Baiana System nos últimos quatro carnavais). “O presidente da Empresa Salvador Turismo (Saltur), Isaac Edington, criticou o estado dos trios elétricos que circulam no carnaval de Salvador nesta terça-feira (28), último dia de festa de 2017. Segundo o gestor, os trios elétricos estão muito antigos e é preciso discutir isso para 2018 por conta do tamanho desnecessários dos aparelhos. Um exemplo a ser seguido seria o “Navio Pirata” que a banda BaianaSystem utiliza, por ser “Pequeno e de Alta Performance”. (Nota do editor: Na contramão dos grandes trios, a prefeitura de Salvador vem incentivando a montagem de micro e minitrios, e criou um dia e percurso especial para eles se apresentarem, a essa iniciativa foi dado o nome de FURDUNÇO, o que seria o equivalente aos bloquinhos do Rio/SP).

Gigplace – O Navio Pirata , como é denominado o Trio Elétrico do Baiana é um resultado dessa mudança? Conte nos sobre esse novo conceito.

Vaughan – O BaianaSystem já utiliza esse trio há quatro carnavais. Ele originalmente possuía um sistema de som básico, que foi utilizado integralmente no primeiro e no segundo ano (2014 e 2015). No carnaval de 2016, fizemos a instalação dos subwoofers da frente e fundo, pois o projeto inicial não dispunha desse recurso e também alteramos todo o material utilizado no palco, desde microfones, console, backline, sistema de monitoração, etc.

No carnaval deste ano, tivemos a oportunidade de alterar todo o sistema de som do carro, incluindo reformas estruturais para que pudéssemos adaptar esse novo sistema à arquitetura do trio.

Junto a essa mudança, começamos a pôr em prática o desenvolvimento de um novo conceito em relação aos padrões dos trios elétricos convencionais. Tínhamos um carro de pequeno porte com potência e qualidade suficiente para uma cobertura compatível com os circuitos do carnaval delimitado a certa distância, levando em consideração a variação constante do ambiente (reflexões), e a variação da temperatura do público, minimizando efeitos destrutivos, como a refração. O sistema não agride quem está próximo ao trio e atinge com clareza quem está mais distante, especialmente na frente e no fundo. No entanto, sem interagir com os outros trios durante o circuito.

Para isso, utilizamos apenas line arrays para a distribuição das altas frequências, onde pudemos fazer algumas predições e tirar o máximo de proveito do equipamento, mesmo com baixa altura do ponto de talha e poucas células por arranjo, ou seja, um desafio (risos).

Utilizamos um sistema RCF, sendo TTL55-A em conjunto com Subwoofers TTS56-A em cardioide na frente e fundo e as TTL33-A em conjunto com subwoofers da ATTACK modelo VERTCON S218D nas laterais. Utilizamos também um processador DBX DriveRack 4800 para fazer o gerenciamento dos lines e processamos os subs direto no console, sendo uma DiGiCo SD8 para o P.A. e monitor. Tivemos que utilizar um único console por conta do espaço físico reduzido.

Gigplace – Em plena euforia do digital, você usa em sua mix delays analógicos externos, nos explique por quê?

Vaughan – Utilizando as máquinas de delays nativos disponibilizados na maioria dos consoles; não há controle em tempo real da resultante do efeito. Entretanto, com delays analógicos (hardwares), é possível manipular diversos parâmetros de tempo e feedback, por exemplo, que facilitam na hora de “aDUBar” a mix em determinados momentos. Além das características específicas de algumas máquinas relacionadas a sua arquitetura de circuito, recursos como saturação de sinal na entrada e realimentação do efeito.

Gigplace – Quais foram os seus companheiros de trabalho no Navio Pirata, quais os seus nomes e funções?

Vaughan – A equipe técnica que trabalhou nesse projeto durante o carnaval foi composta pelos seguintes profissionais: Regivan Santa Bárbara – técnico de monitor; Geronildo Jefferson “Rasta” – roadie, Saulo Maia – roadie; Edilson “Latinha” – iluminador, Erica Telles – produtora executiva (Banda), Renata Brasil – produtora executiva (técnica); Alex Pinto – produtor comercial e Fillipe Cartaxo – diretor criativo.

Gigplace – Como é o perfil da equipe técnica e como ela é vista pelos demais profissionais da estrada por onde já passaram (contratantes, produtores, equipes de fornecedores em geral)?

Vaughan – A nossa equipe é muito comprometida em alcançar o melhor resultado. Independente das condições, buscamos desenvolver o nosso trabalho da melhor forma possível, sempre atuando em conjunto com as produções locais e as equipes de fornecedores como se fossem uma extensão da nossa equipe. É recorrente recebermos dos colegas de estrada um retorno positivo em relação ao nosso trabalho e profissionalismo, e também sermos parabenizados por nossa atuação pelas produtoras. Esse reconhecimento é realmente muito gratificante!

Gigplace – Acumular a função de produtor técnico e técnico responsável pela mixagem do P.A. ajuda ou atrapalha?

Vaughan – Minha função como produtor técnico se resume à pré-produção, onde dialogo com as produções que representam os contratantes e também com os fornecedores responsáveis pela sonorização, garantindo que todas as necessidades técnicas do nosso rider sejam atendidas na íntegra, tendo em vista tratar-se de um projeto com diversas necessidades específicas, desde a captação, monitoração, backline e até mesmo demandas de cuidado com o sistema de som (P.A.) como um todo, para garantir a eficiência e sonorização coerente a cada ambiente e também às características da mixagem do projeto. Então, a equipe consegue desenvolver o trabalho da melhor forma possível e eu consigo me dedicar à mixagem.

Gigplace – O que sonha para seu futuro profissional e sobre o futuro do mercado de entretenimento brasileiro?

Vaughan – Ainda tenho muito o que estudar e evoluir ao longo da minha jornada. Espero que nessa caminhada eu possa atuar em projetos que me desafiem e me proporcionem oportunidade de novos aprendizados. Tenho muitos sonhos para a minha carreira profissional e gostaria de continuar realizando todos eles. Quanto ao mercado do entretenimento, acredito em uma maior união, organização e valorização da classe dos profissionais do backstage, a começar pela regularização profissional (DRT) junto aos órgãos competentes.

Gigplace – Qual a sua mensagem para aqueles que estão começando no mercado do áudio?

Vaughan – O dinamismo do mercado do áudio exige que o profissional se mantenha sempre atualizado. Dentro dessa realidade, o estudo e a capacitação devem estar sempre associados a sua constante evolução como profissional. Uma carreira é construída com muito esforço, dedicação e renúncia. E é muito importante se planejar para conquistar reconhecimento profissional, estipulando diversos objetivos a curto, médio e longo prazos e, principalmente, trabalhando para viabilizar a realização desses objetivos. Ética.

Para saber mais
https://facebook.com/victor.vaughan.foh
https://pt.wikipedia.org/wiki/BaianaSystem

Este espaço é de responsabilidade da Comunidade Gigplace. Envie críticas ou sugestões para contato@gigplace.com.br ou redacao@backstage.com.br.
E visite o site: http://gigplace.com.br.

redacao@backstage.com.br
Fotos: Filipe Cartaxo / Jardel Souza / Arquivo Pessoal / Divulgação

 

Matéria publicada na revista Backstage edição 269 – Abril de 2017

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