Iluminação do Guns N’ Roses

Tão surpreendente quanto a iluminação cênica – com as sensações e emoções sugeridas e proporcionadas – são as formas e formatos com os quais um espetáculo se consolida, com articulação e produção, visual e esteticamente..

 


Tão surpreendente quanto um show é uma turnê inteira, aguardada por décadas, e esperada por milhares de fãs, ansiosos pelo reencontro com os ídolos. Nesta conversa, a apresentação da banda americana Guns N’ Roses, realizada na Pedreira Paulo Leminski, em Curitiba, será analisada como uma surpreendente conjunção entre expectativas e realizações cênicas, visuais e repletas de iluminação.


O ano de 2016 foi marcado por diversos acontecimentos nos cenários da música e do entretenimento. Ícones se eternizaram nas estrelas, deixando uma aura de saudades e muita comoção; bandas e artistas anunciaram turnês de despedidas dos palcos, como últimas oportunidades de reencontros com os fãs, em diversos continentes. Ainda, algumas outras reuniões, memoráveis e inesperadas. Mas o que muitos esperavam há mais de duas décadas ocorreu com um roteiro surpreendente, com um reencontro de músicos de uma certa banda que delineavam uma mínima possibilidade de aproximação, e para eles mesmos isso não ocorreria mesmo, “não nessa vida”.


Reunidos novamente, estariam em cena três dos membros originais dessa banda americana formada em 1985: Axl Rose, nos vocais e piano, Slash, guitarra e violão e Duff McKagan, no baixo e backing vocals (também vocais principais em algumas canções). Para completar a banda, Richard Fortus, guitarra e backing vocals; Dizzy Reed, teclados, piano, percussão e backing vocals; Melissa Reese, teclados e backing vocals e; Frank Ferrer, na bateria.

Com essa formação, a banda voltou em novembro para o Brasil, nesta que foi a sétima vez no país, para seis apresentações da turnê Not in This Lifetime…, que passou por Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Curitiba, sendo o show nesta capital realizado na Pedreira Paulo Leminski, no dia 17 de novembro, e que será objeto de análise desta conversa.


Além dos músicos, outro ‘membro original’ também seria convocado para a produção dessa turnê: Philip “Phil” Ealy. Tendo acompanhado a banda desde o início, Phil Ealy foi o responsável pela emblemática turnê GNR Use Your Illusion, que contemplou 194 shows em 27 países, tendo sido essa a derradeira turnê antes da separação da banda, em 1993. Para a direção de iluminação e programação, Phil Ealy convocou Rob Koenig, que com essas competências trabalhou com artistas como Matchbox 20, Deep Purple.

Com a condução de Phil Ealy e Rob Koenig, a Not in This Lifetime… Tour traz na sua concepção de iluminação e cenário diversas referências, ‘clássicas’ para um espetáculo de rock’n’roll, dimensionado para o atendimento de amplas plateias, para espaços também amplificados em dimensões e estruturas. E também, múltiplos ‘formatos’ associaram-se às mesmas referências, criando assim uma conjunção de elementos estéticos e efeitos responsáveis pela consolidação dessa em uma das mais esperadas turnês – tanto musicalmente, como visualmente.


Com isso, a roteirização da iluminação tem nessa turnê a existência de três elementos fundamentais para as escolhas e as interações percebidas no cenário principal: palco, vídeos e efeitos.

No palco, sobressaem-se os músicos. Em se tratando de Guns N’ Roses, e para esta esperada turnê, não significa ‘apenas’ direcionar os esforços para destacar a presença do vocalista Axl Rose. Evidencia-se que a volta dos músicos Duff McKagan e principalmente Slash, tiraram as atenções de um ponto central e previsível, para uma mais ampla abrangência do espaço cênico para um formato maior. E nisso, ainda se inclui a plateia, outro elemento também destacado na proposta de iluminação.

Ainda no palco, uma passarela ao fundo, com acesso por quatro escadas, fixadas a essa plataforma pelas laterais e centro, conectando o telão principal ao espaço de maior permanência dos músicos, que se revezavam em posições – roteirizadas e cronometradas – mas também para interações e dinâmicas improvisadas e imprevistas, possibilitadas pela versatilidade dessa formatação.


Também estruturado nas principais técnicas e métodos de iluminação, igualmente ‘clássicos’, o palco foi dimensionado para o atendimento de uma banda com sete músicos, que pudessem ser vistos e percebidos por praticamente toda a plateia, de maneira que os grupos de luminárias superiores estivessem dispostos em três linhas curvas, de modo a reproduzir os sistemas e métodos convencionais de iluminação, complementados por sete estruturas singulares, em formatos ‘hexagonais’ e implementados com dezoito luminárias móveis, responsáveis pelas dinâmicas e ênfases, nos músicos – emoldurados e revelados também pelos canhões seguidores -, e no campo cênico visual.

Para o fechamento cênico lateral – e posterior –, quatro colunas delineadas ao telão principal se complementavam, com luminárias Mini Brut, Set Light e Moving Lights, dispostas próximas às escadas, criando efeitos dramáticos e “emoldurantes”, alinhados aos temas das canções e intervenções dos músicos no espaço cênico.


A produção de vídeo, animações integraram o show, desde a contagem regressiva inicial (disparos efetuados por diferentes armas), e recriação de estórias que ilustrariam as canções do repertório. Além desses recursos, imagens captadas em IMAG e projetadas no palco e nas telas laterais, com destaques para os músicos, em solos e outras aparições, pontuais e momentâneas.

Aos efeitos, recursos também ‘clássicos’, com labaredas, fogos de artifício e papel picado, disparados na parte final do show (encore). Nessa turnê, a banda Guns N’ Roses não economizou na oferta de recursos visuais diversificados, esperados por muitos e reverenciados pelos fãs, que se manifestavam energicamente a cada elemento diferenciado demonstrado e utilizado em cenas intensas e empolgantes.


E sobre o show? Considerados todos os elementos anteriormente destacados, um espetáculo visual impecável, complementado por um repertório formado por vinte seis canções – consideradas faixas originais que abrangeram todos os álbuns da banda e mais as covers e temas executados integralmente.

Das canções originalmente gravadas pela banda, oito foram cuidadosamente escolhidas do primeiro álbum, Appetite for Destruction (1987) – as faixas It’s So Easy, Mr. Brownstone, Welcome to the Jungle, Rocket Queen, You Could Be Mine, Sweet Child O’ Mine, Out Ta Get Me, Nightrain e Paradise City, que encerrou o show; duas do segundo álbum, GN’R Lies (1988) – Used to Love Her e Patience; quatro de Use Your Illusion I (1991) – Double Talkin’ Jive, Live and Let Die, Coma e November Rain; cinco de Use Your Illusion II (1991) – Estranged, You Could Be Mine, Civil War, Yesterdays e Knockin’ on Heaven’s Door; e três do álbum Chinese Democracy (2008) – Chinese Democracy, Better e This I Love).


Além dessas canções, covers das bandas inglesas The Damned – New Rose, esta introduzida com um trecho de You Can´t Put Your Arms Memory, gravada no álbum The Spaghetti Incident? (1993), Pink Floyd (versão instrumental de Wish You Were Here) e The Who (The Seeker), o tema instrumental do filme O Poderoso Chefão (The Godfather) Speak Softly Love e muitas canções incidentais; Voodoo Child – Slight Return, de Jimi Hendrix; Layla, de Derek and The Dominos; e Angie, Rolling Stones.

Com o ‘peso’ dos primeiros acordes – e impactos proporcionado pelo conjunto de Mini Brut – iniciava-se uma apresentação histórica, pela entrega, comprometimento e diversão percebidos nos músicos, que proporcionaram uma apresentação irrepreensível, de maneira a atender aos mais fervorosos fãs – e para eles, incomparável, nessa vida -, e admiradores do bom e sempre atual rock’n’roll, e, nesse contexto, eu me incluo.


Em praticamente duas horas e meia de duração, um espetáculo visual surpreendente – com múltiplas alternâncias de intenções e intensidades luminosas – e impressionante, tanto quanto o carisma e disposição de Axl Rose e Slash, que se revezavam nas atenções mais apuradas do público, como pela ótima condução da banda, impecável!

Nesta primeira conversa de 2017, desejo a todos um ano repleto de muitas realizações e muita Luz, direcionada aos melhores e mais promissores caminhos e reveladora de prósperas oportunidades. Abraços e até a próxima!

Matéria publicada na revista Backstage edição 266 – Janeiro de 2017

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