A Iluminação Cênica de Black Sabbath

A história da Iluminação Cênica se confunde, em muitos capítulos, com a história do rock’n’roll. Algumas turnês se tornam referências e modelos, símbolos e paradigmas. O encerramento de alguns capítulos pode também representar a celebração da própria história, o que, em alguns casos, ocorre nas turnês de despedida de artistas e bandas consagradas.

 

Na sua última passagem na América do Sul, com a turnê The End, a banda inglesa Black Sabbath proporcionou a realização de sonhos de milhares de fãs, e última oportunidade de reverência a essa banda. Quando se encerrar a última apresentação da atual turnê da banda inglesa Black Sabbath, programada para fevereiro de 2017, no Genting Arena, localizado na cidade onde tudo começou, em Birminghan, na Inglaterra, será finalizado também um importante e contundente capítulo da história do rock’n’roll.

Fundada em 1968, foi originalmente formada por Tony Iommi nas guitarras, Geezer Butler no baixo (e principal letrista da banda), Ozzy Osbourne nos vocais e Bill Ward na bateria, com fortes influências do British Blues – principalmente da banda inglesa Cream – além de inspirações na Psicodelia, movimento efervescente naquele período.


Para esta derradeira turnê mundial, foi convocado um time de gênios na iluminação cênica e experts em suas funções, especificamente. O escritório Woodroffe-Bassett foi contratado para a direção de criação, que ficou a cargo de ninguém menos que Patrick Woodroffe, um dos mais brilhantes Lighting Designers de todos os tempos, com as contribuições do também Lighting Designer Terry Cook. A direção de iluminação ficou sob a responsabilidade de Michael Keller, LD que já havia trabalhado nas turnês solo de Ozzy Osbourne. A programação, irretocável, foi cuidadosamente desenvolvida por Eric Marchwinsk (que já programou turnês para Barbra Streisand, Pearl Jam, Bon Jovi, Beyonce, Soundgarden, Katy Perry, Taylor Swift, entre outros).

No Brasil, a The End Tour passou por quatro capitais: Porto Alegre (no Estacionamento da FIERGS, no dia 28/11); Curitiba (na Pedreira Paulo Leminski, no dia 30/11); Rio de Janeiro (na Praça da Apoteose, no dia 4/12); e São Paulo (Estádio Cícero Pompeu de Toledo, no dia 04/12). Na capital gaúcha, a abertura teve a apresentação da banda Krisium, e em São Paulo, Doctor Pheabes. Nessas e nas outras duas cidades, a banda americana Rival Sons, que integra a turnê mundial fez a abertura oficial.

Para esta conversa, uma análise para as percepções do show realizado em Curitiba-PR.

Significativamente, para tão relevante realização, princípios da iluminação cênica se distinguem expressivamente, em quatro principais aspectos: adaptabilidade, funções e regras, roteiro e mapeamento de palco.

A adaptabilidade se torna um dos mais fascinantes princípios da iluminação cênica por ser o mais amplo e diversificado conceito, aplicado às dinâmicas que ocorrem, vinculadas ao espaço cênico, aos aspectos culturais dos locais visitados (e neles, pelas interações com todos os públicos – fãs, profissionais, cadeia produtiva e turística) e mesmo à performance dos músicos e elementos cênicos. Patrick Woodroffe é mestre nesse quesito (e em todos os demais). Para uma turnê com mais de oitenta shows programados, todas essas variáveis se somam, na obtenção dos melhores resultados. Para uma banda com mais de 45 anos de história, e com fãs espalhados em todos os continentes, o dimensionamento da turnê envolve particularidades de todos os aspectos citados, respeitadas as diferenças e necessidades de cada cultura.

Projetar na iluminação cênica requer amplo conhecimento sobre as luminárias, com suas principais funções, e regras – aqui, também no sentido mais amplo, relacionado às características técnicas como questões de segurança. Como exemplo, shows com elementos pirotécnicos, por exemplo, devem observar não somente as condições locais de utilização como as normas/legislação pertinente para esses recursos.

Para um roteiro conhecido, nada mais emblemático que as surpresas proporcionadas pela iluminação cênica. Mesmo que todo o projeto tenha a sua configuração de instrumentos programada de maneira absoluta, a operação sincronizada ainda permitirá variações e sutilezas, tornando cada apresentação única. Terry Cook faz isso com maestria, proporcionando variações com sensibilidade e criatividade.

Como último princípio destacado, o mapeamento do palco para uma banda tão representativa. Especificamente para o Black Sabbath, momentos inusitados são esperados de Ozzy Osbourne – como realmente ocorreram em Curitiba. Mas, de maneira mais categórica, o delineamento geométrico nas delimitações do palco permite a previsibilidade para as improvisações, e as alternativas para os imprevistos.


Precisamente às 21 horas iniciava-se aquela que seria a primeira e última apresentação da banda Black Sabbath em Curitiba. Uma animação apocalíptica projetada nas telas antecederia a entrada dos músicos – nessa turnê, também fazem parte da banda, além de Tony Iommi, Geezer Butler e Ozzy Osbourne, os músicos Tommy Clufetos (Alice Cooper, Rob Zombie e John 5) na bateria e Adam Wakeman (headspace, Wakeman & Wakeman, Ozzy Osbourne, Annie Lennox, Travis), nos teclados e guitarra base.

Com essa formação, a banda tem executado em cada show dessa turnê de treze a quatorze canções, de fato, hinos que consagraram essa como uma das mais impactantes no estilo. Como exemplo clássico disso, a abertura do show, ‘Black Sabbath’ (canção que abre o álbum homônimo, de 1970), e referência essencial para a compreensão do heavy metal. Na iluminação, cores análogas, do âmbar para o vermelho, e deste para o violeta, eram projetadas pelos moving lights, e alternavam-se com os blinders, até o interlude/solo com predominância de fachos perpendiculares em tons azuis e ciano.

Na segunda canção, Fairies Wear Boots (Paranoid, 1970), intervenções psicodélicas na iluminação e nos efeitos de vídeo que intercalavam as imagens dos músicos – captadas em IMAG e projetadas no palco e nas telas laterais -, em detalhes. Novamente, combinações análogas, mas em tons mais ‘frios’. Na sequência, em After Forever (Master Of Reality, 1971), enquanto a projeção de explosões (vídeo) causava euforia, sutis combinações de cores complementares proporcionavam o equilíbrio adequado pela predominância de azuis, inclusive no solo de guitarra.

Em Into The Void (Master Of Reality, 1971), padrões simétricos e inicialmente estáticos, do branco para o âmbar, e dessa cor para o azul cobalto, forneciam as texturas e formas para um andamento envolvente e dinâmico. Na quinta canção, Snowblind (“Vol. 4”, 1972), predominância de fachos intensos e definidos, em uplighting e downlighting, formando colunas e camadas densas e marcantes.

Na sequência, War Pigs (Paranoid, 1970), cenas estáticas e acentuadas, monocromáticas e profundas, proporcionavam o ‘clima’ propício para o desenvolvimento dessa canção, pautada em uma filosofia de distanciamento e questionamento sobre as guerras (também com simulações sonoras e visuais, na evolução da canção).

Para N.I.B. (Black Sabbath, 1970), sétima canção, spotlights direcionados ao discreto e magistral Geezer Butler, com um solo inicial (intitulado Bassically), culminando na introdução de uma das mais memoráveis canções da banda. Fachos simétricos e dinâmicos nos versos; azuis estáticos e intensos no refrão.

Em Iron Man (Paranoid, 1970), spotlights enfatizavam as notas iniciais de Tony Iommi e os acordes iniciais, com destaque para os quatro músicos que se posicionavam no palco. Cores dominantes se alternavam, do azul para o vermelho, com efeitos de explosões nos vídeos, principalmente no riff principal que antecedia cada verso. Importante destacar também a presença de tríades (cores, formas, agrupamentos de fachos) e elementos cruciformes, presentes e recorrentes em todo o show.

Para Dirty Women (Technical Ecstasy, 1976), fachos condensados em downlighting preenchiam o palco, emoldurando e amplificando as dimensões e proporções. Para encerrar o primeiro ato, Children Of The Grave (Master of Reality, 1971), com marcações e dinâmicas diversificadas, tanto nas formas como nas cores, e blinders tonificando as divisões rítmicas como se executassem staccatos duplos. Na projeção, efeitos transformavam as imagens captadas em representações impressionistas, em pontilhismo, também complementadas com imagens fúnebres, em animações monocromáticas.

No bis, e como tem sido em praticamente todos os shows da turnê, Paranoid (segunda canção do álbum homônimo, 1970), clássico da banda, com sequências frenéticas, e utilização de todos os instrumentos de iluminação, em uma maior diversificação de cenas, efeitos e recursos, para um encerramento apoteótico, em celebração a uma trajetória ímpar.

Nessa despedida, evidencia-se a precisão e profissionalismo de uma banda edificante e essencial para a compreensão da história do rock’n’roll. Mais que isso, momentos memoráveis e inesquecíveis, compartilhados por todos os expectadores, testemunhas de uma história que se encerra em um capítulo ainda aberto, repleto de gratidão e aplausos, iluminado solenemente com alegria e muitas emoções.

Abraços a todos!!!

Matéria publicada na revista Backstage edição 267 – Fevereiro de 2017

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