Whitesnake no Brasil

Iluminação Whitesnake

Cezar Gallhart

As cores são alguns dos mais marcantes e fascinantes atributos das luzes empregados na iluminação cênica para proporcionar percepções, sensações e sentimentos únicos. Originadas e percebidas a partir de estímulos visuais, e estabelecidas com base nos fundamentos e princípios da óptica (Física), e mais especificamente da Luminotécnica, as análises das cores vinculadas às luzes resultam também da compreensão de parâmetros e características, tais como os matizes, brilho e saturação, entre outros.

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Nesta conversa, focada na apresentação da banda inglesa Whitesnake na cidade de Curitiba, integrante da The Greatest Hits Tour 2016, todos esses e outros elementos foram percebidos intensamente e profundamente.

A cor é um atributo fascinante utilizado na iluminação do palco para ajudar a mostrar a emoção estabelecida entre os elementos dinâmicos que compõem uma cena e que são valorizados e destacados pela iluminação. Sem cores, um espetáculo pode se transformar em uma apresentação monótona e cansativa. Mas também as escolhas das cores devem prezar pelas interações visuais de maneira adequada, com atratividade e alinhamento aos conceitos – e também aos princípios da Física, relacionados à luz.

Em uma primeira análise, cabe à produção de um show musical um conjunto de elementos – sonoros, estéticos e visuais – que possibilitem aos fãs o atendimento de expectativas, como sempre tem sido abordado em diversas conversas nessa coluna. E na dinâmica de um espetáculo, a convicção da satisfação pode ser avaliada quase automaticamente aos estímulos proporcionados e identificados pelas reações do público, que se interrelaciona com os artistas e bandas com respostas das mais diversificadas. E se a iluminação tem uma participação significativa nesse contexto, isso ficou evidenciado no show descrito a seguir.

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Em sua última turnê mundial, a banda inglesa Whitesnake incluiu sete shows da The Greatest Hits Tour 2016 em seis cidades brasileiras (Porto Alegre, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba e Rio de Janeiro). Na capital paranaense, a banda realizou sua terceira apresentação na cidade, no dia 30 de setembro, com um repertório formado por algumas das mais marcantes canções, de uma trajetória de trinta e oito anos de carreira musical.

Na atual formação, a banda conduzida pelo carismático e imponente vocalista David Coverdale se completa com músicos experientes e tecnicamente excelentes: Reb Beach, na guitarra e backing vocals; Joel Hoekstra, guitarra, violão e backing vocals; Michael Devin, baixo e backing vocals; Michele Luppi, teclados e backing vocals; e o lendário baterista Tommy Aldridge, revezavam-se entre solos e demonstrações competentes de acuracidade e virtuosismo na execução das quatorze canções que fizeram parte do setlist, formado basicamente por faixas dos álbuns Snakebite (1978), Slide It In (1984), Whitesnake (1987) e Slip of the Tongue (1989). Para o bis, uma versão de Burn, canção da banda Deep Purple (1974), regravada em 2015 no álbum The Purple Album.

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Em se tratando de iluminação, foi uma apresentação marcada pela profusão de cores, centradas basicamente nas paletas dos azuis, vermelhos, violetas e análogas, ou seja, nas resultantes da adição da luz branca, ou mesmo com a resultante da mescla das cores, a partir de padrões preestabelecidos.

Como também mencionado em diversos momentos nas conversas anteriores, as escolhas das cores estão relacionadas aos métodos de iluminação, muitas vezes determinados pelos tipos de luminárias, definidas ou limitadas pela estrutura disponível. Para a iluminação configurada com instrumentos convencionais, compostos por lâmpadas halógenas e filtros fixados para a projeção de luz colorida, os métodos e técnicas são restritivos, embora muito interessantes e com resultados espetaculares.

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Entretanto, com o advento do LED como dispositivo tecnológico integrado cada vez mais no dia a dia da iluminação cênica, os métodos e técnicas de utilização de uma mais diversificada e ampla configuração dos instrumentos com esses elementos possibilita uma variedade de soluções e efeitos diferenciados. Não se pode omitir, entretanto, as limitações do próprio LED, ainda incomparável às halógenas na qualificação do brilho produzido por estas lâmpadas. Assim, como um conjunto, os atributos associados à luz resultante compreenderão a intensidade (brilho), a quantidade de luz branca determinante para a saturação e o matiz, sendo esse decorrente da cor predominante.

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Com base no padrão RGB – que utiliza as cores primárias aditivas, ou seja, os matizes vermelho, verde e azul – também utilizada nas luminárias convencionais, com filtros nessas cores, a mistura de cores ocorrerá no direcionamento dos instrumentos em uma mesma direção, com facho de luz também focado em uma mesma posição. Em decorrência disso, a adição das cores primárias na mistura de cores torna-se uma maneira eficaz na obtenção de cores profundas, ou mesmo para a redução da saturação dos matizes originais.

Isso não ocorre com mais efeito com o método pelo qual são realizadas composições pelo método com o qual, ao invés da adição das luzes coloridas, ocorre a subtração das cores na mistura produzida, com perdas pela redução da intensidade total na resposta final. Para esse segundo método, e que valoriza as cores do padrão CMYK – que são o ciano, magenta, amarelo (e preto, quando representado como cor pigmento) – ou cores primárias subtrativas, os efeitos e propostas serão outros.

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frase02De maneira bem simplificada, a mistura de cores aditivas (RGB) ainda é a melhor maneira de obter cores mais profundas, em relação ao outro método, com a mistura de cores subtrativas, pois ocorrem perdas de intensidade/brilho para a obtenção de cores mais profundas – principalmente com instrumentos constituídos de dispositivos LED.

Com zelo, a iluminação do show do Whitesnake prezou pela técnica e densidade. E isso ficou evidente desde a primeira canção. Com um mínimo atraso no início – decorrente de um problema no acionamento da pedaleira de Hoekstra – a banda surgiu no palco para a execução de Bad Boys, com frenética alternância de cores – azul, vermelho, magenta e violeta – e impressionante abertura para um show que se manteve em níveis elevados de energia e empolgação.

Com Slide It In e Love Ain’t No Stranger (ambas do álbum Slide It In, de 1984), sutis mudanças nas sequências de cores, para essas que são duas das mais marcantes canções do repertório, e do show. Sempre acompanhado por um canhão seguidor, Coverdale se destacava não somente por ser o bandleader, mas pela presença de palco, repleta de carisma e enfatizada por luzes brancas, somadas às cores que valorizavam os músicos e os elementos cênicos.

Em The Deeper the Love, azuis profundos emolduraram o palco, sendo apenas os refrões tingidos com vermelhos, magentas e violetas, também profundos. Moving lights encarregavam-se em proporcionar texturas mais brandas, em contraposição à maior massa luminosa gerada pelos refletores LEDs.

Na sequência Fool for Your Loving, Ain’t No Love in the Heart of the City e Judgement Day, variaçõesfrase03 do Hard Blues para o Hard Rock, e nos matizes – azuis e vermelhos – com transições suaves para o magenta, violeta e até amarelo, induzindo também a percepção para as repetições – princípios do design também aplicados à iluminação.

Enquanto Slow an’ Easy e Crying in the Rain se destacaram pelos solos individuais de todos os músicos (exceção ao tecladista), e enalteciam as influências do blues nos processos de composição, essencialmente desenvolvidos a partir desse estilo, canções como a balada Is This Love e novamente a energia do hard rock com Give Me All Your Love mostravam a versatilidade em um repertório formado por quase quarenta anos de uma banda que soube se reinventar, mantendo a essência e respeito às raízes – sonoras e também relacionadas à iluminação, com oscilações da old school às sofisticações dos moving heads.

Here I Go Again, verdadeiro hino rock’n’roll da década de 1980, entoado pelo público a plenos pulmões, além de encerrar a primeira parte com vigor e emoção, enfatizou o vocal de Coverdale, único e inconfundível. Ainda com as referências da iluminação, matizes vermelhos foram complementados por outros, azuis e violetas, resgatando outro princípio do design – unidade.

Para o bis, Still Of The Night e Burn proporcionaram uma apoteose luminosa e sonora, unindo referências da trajetória de uma banda que mais uma vez privilegiou gerações de admiradores que estiveram presentes naquela sexta-feira, e foram presentados com um espetáculo vibrante, emocionante e divertido, marcado pela excelência técnica e muitas cores, intensas e profundas.

Abraços e até a próxima conversa!

Backstage edição 264 – Outubro de 2016

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