Isaíra Oliveira – Diretora de Produção

Isaíra Oliveira

Em mais uma entrevista desta série sobre os bastidores das produções musicais, com profissionais que estejam direta ou indiretamente ligados ao dia a dia do entretenimento, vamos conversar com a diretora de produção Isaíra Oliveira.

Isaíra Oliveira

Gigplace – Isaíra, qual a sua formação, e como você parou no mercado de entretenimento?

Isaíra Oliveira – Estudei em escola pública no interior de São Paulo, onde, na minha geração, tínhamos aulas de teatro e educação artística. Foi meu primeiro contato com a área. Desde então, me apaixonei. E a escola proporcionava muitas atividades relevantes, como apresentações de música e teatro para a comunidade local. Daí por diante não parei mais. Comecei a estudar música – violão clássico, por 12 anos, e até cheguei a dar aulas de música. Também formamos um grupo de teatro, que se chamava “Penumbra e Pégaso”, que a atriz Cleide Yáconis apadrinhou, e depois disso fomos nos apresentando e aprendendo como fazer teatro e música.

Participei da primeira turma da Universidade Livre de Música de São Paulo, me graduei em Comunicação Social/ Publicidade e Propaganda pela Faculdade Armando Álvares Penteado de São Paulo, onde conheci muitas possibilidades de trabalho nos bastidores da produção e onde conheci muita gente que me ensinaria a fazer a diferença no futuro.

Eu sempre pesquisei muito e sempre me preocupei em aprender o máximo possível, por isso, todo curso, palestra e oficina sobre a área de produção, eu me esforçava e conseguia fazer. Assim, fui conhecendo gente interessante e fui me disponibilizando para estar junto a eles como estagiária, ouvindo ou apenas como observadora.

Em paralelo ao trabalho de produção, fui fazendo também a minha carreira acadêmica. Fiz pós-graduação em Docência para Ensino Superior na Faculdade Senac, onde desenvolvi um projeto para a área de eventos. Depois fiz Mestrado em Hospitalidade, pela Universidade Anhembi Morumbi, também em São Paulo, onde minha pesquisa resultou no livro “Hospitalidade em shows de música – Um estudo sobre as relações entre profissionais de bastidores, artista e espectador nas casas de espetáculos”.

Depois fui fazer doutorado em Artes, no Instituto de Artes da UNICAMP, em Campinas, onde pesquisei a área de dança, que também já tinha trabalhado no passado. Minha pesquisa resultou no livro “Recepção em Dança – O especialista e o Espectador”.

Também realizei outra pesquisa dentro da Escola de Comunicação e Artes da USP, em meu pós-doutoramento, sob o título “As relações entre artista e fã sob a ótica do consumo – a questão dos fãs clubes”.

Além de fazer cursos no exterior como “Qualidade em Serviços”, no Disney Institute, nos Estados Unidos. Tudo pensando sempre em aprimorar meus conhecimentos, porque temos sempre muito a aprender. Agora estou finalizando o meu próximo livro “Produção Executiva – logística de shows e eventos artísticos”, que será lançado no segundo semestre de 2016. Basicamente isso. Ou seja, foi estudando muito e me propondo a aprender sempre mais que entrei para o mercado de entretenimento.

Gigplace – Além de produtora e educadora é escritora, como faz para conciliar o tempo para fazer tudo isso?

Isaíra – Se você gosta do que faz, fica muito fácil. Conciliar tudo é uma questão de disciplina e muita dedicação. Faço tudo que amo, mas faço uma coisa de cada vez. No meu tempo, na minha organização, sem atropelar os processos.

Gigplace – O que faz um diretor de produção?

Isaíra – Puxa! Essa pergunta é a mais difícil e complexa de todas. Se eu responder da maneira clássica, vou dizer, que o diretor de produção faz tudo. E aí você vai me perguntar, provavelmente, o que é esse tudo (risos). Tecnicamente, a palavra “produção” vem do latim producere, que significa “fazer aparecer”, também tem sua base relacionada a outra palavra do latim, productio, que está associada a criar, originar ou fabricar produtos e serviços.

Para mim, é um conjunto de atividades para tornar uma ideia viável. Quando falamos de viabilidade, temos que pensar, primeiramente, em planejamento, qual a melhor data, local, horário, tempo. Se temos os recursos financeiros e humanos, a viabilidade técnica e operacional para a execução do projeto, entre vários outros aspectos. Ou seja, temos que avaliar aspectos internos e externos à nossa produção para depois, sim, colocar em prática o que idealizamos. Acho que é isso que um diretor de produção faz. Planeja tudo, antes, durante e depois, para que o espetáculo aconteça da melhor maneira possível.

Gigplace – Uma pergunta vital para esta entrevista, como você participou da evolução do mercado do entretenimento desde os anos 80 até os tempos atuais e quais foram as mudanças mais marcantes, tanto na evolução tecnológicas como nos eventos em si, o que mudou?

Isaíra – Creio que, principalmente, mais profissionalização do setor e a velocidade das informações, com o advento da internet e as novas ferramentas tecnológicas. No passado, não tínhamos muitos profissionais qualificados e nem equipamentos e nem locais para shows grandiosos.

O que mudou de lá para cá, foi a profissionalização do setor, o nível de informação. Minha geração não tinha cursos para ensinar como fazer determinadas coisas e nem tantas ferramentas disponíveis para se comunicar com tanta rapidez como hoje. Aprendíamos tudo fazendo. Hoje temos cursos de vários níveis para todo tipo de qualificação. E o advento da internet e da informática otimizou muitos processos, e facilitou muito a vida do produtor, pois agora temos respostas bem mais rápidas do que no passado.

Gigplace – Quais os passos para que um projeto saia do papel e se torne um show, festival ou evento?

Isaíra – São muitos passos. Para cada tipo de evento, festival ou show, há sempre uma necessidade técnica diferente. Se você não escrever detalhadamente seu projeto, jamais saberá o que é necessário para realizá-lo. Na verdade, tudo vai depender do tamanho da produção ou evento, se é grande ou pequeno. Dependerá das necessidades operacionais e técnica, bem como da exigência dos artistas e do pessoal envolvido no processo. Também dependerá da época, da data, do local, do horário, em que será realizado o evento ou show, ou festival. Se o evento será realizado em um dia ou vários. Dependerá do tamanho da sua equipe, do tempo que você terá para desenvolver o evento e, principalmente, se você terá recursos financeiros suficientes para realizá-lo.

A base de tudo é planejamento. No início, meio e fim, prevendo todas as possibilidades de problemas, para ter sempre a oportunidade de resolver a situação a tempo.

Gigplace – Qual o processo de seleção para uma equipe técnica, qual a visão da direção de produção levando em conta a criação de um projeto do zero, e como é determinado os valores e forma de pagamento dos vencimentos desses profissionais?

Isaíra – Na minha experiência, antigamente, recrutávamos profissionais em universidades. Por meio do painel-mural de empregos e estágios nas universidades de comunicação, principalmente. Creio que hoje não seja muito diferente. O painel talvez seja eletrônico atualmente.

Mas o que se busca sempre são profissionais qualificados, ou pessoas que têm interesse em aprender, principalmente. Um profissional bem qualificado custa caro. E dependendo de sua necessidade, não é ele que vai resolver o seu projeto.

O importante é saber exatamente de qual profissional você precisa para a sua produção. Outra coisa é informar tecnicamente o que você espera desse profissional para a realização do projeto. Para depois discutir valores e formas de pagamentos.

O tamanho do projeto vai justificar os valores e formas de pagamento, bem como a disponibilidade desses profissionais. Não há uma regra. Como digo sempre, tudo é negociável.

Gigplace – No seu livro “Hospitalidade em Shows de Música”, você explica e traça o perfil do que seria o atendimento para o cliente dos shows, que é o público pagante, porém muitas vezes os eventos não têm o mínimo de conforto necessário, faltando desde banheiros ao som de qualidade. No entanto, o preço cobrado pelo ingresso muitas vezes se iguala a shows internacionais. Por que algumas vezes essa contrapartida é tão cruel para o público pagante?

Isaíra – Na minha opinião, basicamente, é falta de planejamento adequado e falta de respeito com o público, seja ele pagante ou não. Se você não sabe quem é seu público, não conhece o espaço que será realizado seu evento, provavelmente terá todos os problemas de logística do mundo. Assim como temos notado uma profissionalização do setor, vemos também muita gente entrando para o meio de entretenimento por acreditar num certo “glamour” da área, ou simplesmente por acreditar que é o meio mais fácil para estar perto dos artistas. Muitos deles não estão dispostos a aprender e, por isso, muitas vezes cometem erros clássicos e bem básicos.

Já participei de muitos shows cujo o valor do ingresso não correspondia ao mínimo de conforto nem para o público e nem para o artista. Então, ainda acho que é falta de planejamento puro.

No meu próximo livro Produção Executiva – logística de shows e eventos artísticos, que será lançado no segundo semestre de 2016, dou um exemplo de um Festival de Música que tinha como seu patrocinador principal uma marca de cerveja. No entanto, faltou exatamente essa cerveja, na metade no evento. Como pode ser isso? Penso que foi pura inexperiência ou falta de planejamento.

Frase 01

Gigplace – Ainda sobre esse tema, por que as produções nacionais são tão básicas em seus shows, não temos espetáculos que você saia com a sensação de “uau”, preciso ver tudo de novo”, com poucas exceções é claro? Por que isso acontece, faltam fornecedores com a tecnologia necessária, ou a logística para sair com o show desse tipo no nosso país ainda é inviável?

Isaíra – Creio que falta criatividade, estudo, pesquisa e dedicação. Escrever um projeto e realizar uma grande produção nacional exige muito tempo e muito dinheiro também. Mas muitos profissionais da área preferem ganhar só o dinheiro e não dedicam tempo para os outros itens fundamentais como a pesquisa, o estudo e a dedicação, no meu entender. Criatividade requer tempo, teste e erro. E só depois de muito estudo conseguimos realizar algo grandioso que independe de tecnologia ou fornecedores.

No passado, por exemplo, se você estudar a época de ouro dos cassinos e dos Teatros de Revistas, tinham-se excelentes produções, com menos da metade das tecnologias e dos fornecedores que temos hoje. Então não creio que falte tecnologia ou fornecedores, mas profissionais dispostos a estudar um pouco mais as possibilidades.

Gigplace – O mercado do entretenimento está sofrendo por mudanças, tentando se ajustar a nova realidade econômico-social brasileira, na qual se precisa lucrar e ainda concorrer com as produções estrangeiras que já inseriram o Brasil nas suas turnês, qual sua opinião sobre este momento?

Isaíra – Na minha opinião, o setor de entretenimento é o único que não tem crise. Em termos de dados econômicos, perdemos apenas para dois setores no mundo: o bélico e o automobilístico. As produções internacionais possibilitam, para mim, e para os profissionais e as produções nacionais, um maior aprendizado e não uma concorrência.

Temos tipos de espetáculos para todos os tipos de público e de bolso. Do contrário, não teríamos em cartaz uma enorme quantidade de musicais com temas nacionais, contando a história de muitos personagens da nossa música. Esses musicais nacionais foram inspirados nas produções estrangeiras. Da mesma forma que, no passado, os nossos cassinos e teatros de revistas também. Portanto, não vejo crise, vejo oportunidade. A crise é de criatividade, que não tem nada a ver com a realidade econômico-social brasileira.

Gigplace – Neste mesmo mercado os profissionais, em especial o pessoal técnico, está dividido entre o que era chamado de freelancer e a formalidade, seja ela como prestadores de serviço ou a CLT em alguns casos. Na sua visão, qual o modelo ideal para ambos os lados da moeda, produtores e mão-de-obra?

Isaíra – O modelo ideal é trabalhar naquilo que gosta e da melhor maneira. Seja com carteira assinada ou como freelancer. Cada um sabe o que é melhor para si mesmo. Desde que tudo esteja em um contrato, informando exatamente no que você irá trabalhar, quanto tempo (horas/ dias) e de que forma irá receber (dinheiro/cheque/barra de ouro) por aquele trabalho, por mim, tudo bem. Além disso, nesse contrato devem constar seus deveres e obrigações, além de formas de cancelamento e multas.

O resultado do seu trabalho é que, com o tempo indicará o modelo ideal para cada tipo de profissional. Em meus cursos pelo país encontro muitos técnicos e outros profissionais de produção que optaram por ser freelancer por achar que isso possibilita a eles conhecer várias maneiras de trabalhar e de conhecer outros tipos de produção. E ao mesmo tempo, encontro outros profissionais que preferem a formalidade de uma carteira assinada, por entender que há mais uma estabilidade. O modelo ideal é o modelo justo, que honre o que foi acordado, sem perdas para nenhum dos lados.

Gigplace – Na área técnica e de produção é necessário sempre estar atualizado com as novidades e técnicas referentes a sua área de atuação. No áudio, por exemplo, existe uma consciência da necessidade de reciclagem de conhecimento e especialização. O pessoal de produção também tem se especializado por meio de cursos e treinamentos?

Isaíra – Conhecimento nunca é demais, e estamos sempre aprendendo em qualquer área. Como disse antes, hoje há muitos cursos livres, cursos técnicos, cursos de graduação e de pós-graduação na área de produção cultural. Manter-se atualizado é sempre uma obrigação. Ainda temos muitas informações em livros e na própria internet.

Assim, estudar faz parte e requer muito interesse e dedicação. Muita gente sai do mercado porque não se atualizou. Por isso, creio que em qualquer profissão isso é necessário.

Gigplace – Qual a real dificuldade de se fazer turnês dentro do Brasil pelo lado logístico da coisa, será que ainda é inviável fazer 22 shows nas principais capitais no formato turnê com cenário, som e luz?

Isaíra – A dificuldade que vejo são as distâncias continentais que temos em nosso país, e em muitos casos falta as estruturas básicas dos locais. Muitas vezes não se tem estradas adequadas. Em muitos lugares não se tem aeroportos, ou pontos de apoio. Há muita burocracia. E se mesmo assim você optar por realizar uma turnê com todos os equipamentos de luz, som e cenário, o investimento financeiro será muito grande, pois você também precisará de uma equipe maior para colocar em prática tudo isso, gerando mais gastos. Penso que quando montamos um projeto, desde o início temos que pensar se ele vai gerar uma turnê ou não. Pois, isso, para mim, é planejamento. E se for gerar a turnê, eu tenho que ter planejado o cenário, o som, a luz, antes de entrar na estrada.

Gigplace – Um outro fato que nunca compreendi bem, porque se grava um DVD grandioso, se exibe na TV a cabo, e vai para a estrada com uma miniatura do que foi feito na TV? Só para termos um parâmetro, pelo mundo afora, primeiro se faz a turnê e por último grava-se o DVD, que as pessoas compram por ser uma recordação do show que elas já viram ao vivo. O que você acha dessa prática mais comum por aqui?

Isaíra – Hoje há muitas maneiras de se conquistar o mercado. O público quer materialidade em meio a tantas coisas virtuais. Por mais que se tenha um show maravilhoso, o CD e o DVD ainda são uma forma de cartão de visita. Creio que é uma necessidade de mercado. Um DVD bem produzido serve para colecionadores, para fãs, para divulgação maior do trabalho e para mostrar toda a possibilidade do artista, o que gera uma maior possibilidade de venda em vários formatos do show.

Frase 02

Gigplace – Com a sua experiência, qual a visão de futuro do mercado de entretenimento brasileiro, e qual o perfil ideal para o profissional “se dar bem” nesse futuro?

Isaíra – O mercado brasileiro tem um grande potencial e está formando grandes profissionais também. O que se precisa é gostar daquilo que se faz, estudar bastante, investir em cursos e troca de experiências profissionais. Já há um grande intercâmbio entre profissionais de todos os estados brasileiros, por conta de suas especialidades locais. Precisamos valorizar mais os talentos locais. Pois o perfil do profissional no futuro vai ser igual ao de todas as épocas: se manter atualizado, aberto a novas ideias e investir em cursos de qualificação.

Gigplace – Todos nós temos na carreira aquela roubada ou saia justa que, no momento em que acontece, dá vontade de sumir do mapa, mas depois de um bom tempo rende boas risadas. Qual a sua roubada ou saia justa preferida?

Isaíra – Nossa! Foram tantas (risos). Rapidamente, para não comprometer ninguém e nenhuma produção. No meio de uma produção, lá do passado, estávamos testando um equipamento de última geração, onde o nome de todos os patrocinadores seriam projetados em grande estilo, num grande telão, ao final do show. Nesse dia, todos os patrocinadores estavam no show, e, por algum problema técnico ou inabilidade do operador (o que a gente não sabe até hoje), a projeção não aconteceu e nenhum patrocinador apareceu no telão, e o que era o tão esperado final, foi um grande caos.

Gigplace – Quais são os seus planos, o que pretende fazer daqui a 10 anos?

Isaíra – Exatamente o que faço hoje. Trocando experiências com gente interessante e interessada, e aprendendo cada vez mais. Ministrando meus cursos, orientando meus alunos, fotografando meus shows e fazendo o que há de melhor: estar com os amigos queridos e a família brindando com meus bons vinhos (risos). Talvez faça mais um doutorado ou mais uma pós-graduação, quem sabe. Aposentadoria, jamais.

Gigplace – Qual conselho daria para quem está começando hoje na área de produção e logística de eventos?

Isaíra – Faça sempre o que gosta. Pesquise bastante. Nunca deixe de estudar e fazer bons cursos. Ouça sempre, observe, analise e coloque tudo no papel primeiro. O segredo do sucesso é fazer o que mais gosta. Você vai ouvir muitos “nãos” até ouvir o primeiro sim. Mas as grandes realizações vêm exatamente do que parecia impossível. Não desista do seu sonho.

Para saber mais

Matéria publicada na Edição 261 da Revista Backstage – Agosto 2016.

Compre online esta edição clicando na imagem abaixo:

Capa 261

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