Disco de vinil: saudosismo e retorno

Confira abaixo duas matérias em um único post, sobre discos de vinil, respectivamente por Ticiano Paludo (2007) e Miguel Sá (2015).

Nesses dias começou a me bater uma incontrolável nostalgia. Olhei para uma prateleira que existe no meu estúdio, repleta de discos de vinil, e pensei: Nossa! Que saudades do vinil.

Eu lembro bem quando o CD surgiu no mercado. O primeiro aparelho que ganhei foi num Natal. Era novidade, havia poucos títulos convertidos para essa nova mídia. Nessa ocasião, se não me falha a memória, ganhei um álbum da Madonna. Imagine: qualidade cristalina de som e economia de espaço. Tudo com o que sempre sonhamos! Será? Estamos em 2007 e o espaço ficou ainda menor.

Isso ocorre porque, agora, nem sequer CDs a gente manipula mais. Entramos na era virtual e manipulamos arquivos de áudio, principalmente o MP3, formato mais aceito pela grande maioria das pessoas. Pensei novamente e me perguntei: será que evoluímos ou involuímos com isso tudo? Quando a gente está superacostumado com a sonoridade de um álbum que possuíamos em vinil e passamos a ouvi-lo no formato CD ou até MP3, o que se nota, principalmente em obras remasterizadas, é que o som é e não é o mesmo. Por muitas vezes fica tudo tão polido, tão bonitinho que parece que a química orgânica de certas músicas perde força. Ruídos que nos eram familiares desaparecem e outros que não podíamos ouvir (pela sonoridade “mais pobre”) acabam aparecendo.

Isso tudo resulta em um colorido um pouco diferente, às vezes mais desbotado, às vezes mais vibrante e saturado.
O ser humano – de um modo geral – possui uma certa sede incontrolável por tecnologia e inovação tecnológica. A prova disso é a avalanche dessas novas descobertas que desabam sobre nossas indefedosas almas e nos fazem perder o sono e, dependendo do caso, uma boa quantia em dinheiro. Isso me lembra uma história de quando os carros começaram a ser fabricados no Brasil com freios ABS: muita gente não entendia direito do que se tratava, mas queria a todo o custo que seu carro tivesse um ABS, afinal, era “a” novidade do momento. Talvez aí comece a surgir a diferença entre os modismos tecnológicos e as reais inovações de que precisamos. Logicamente, é mil vezes mais fácil editar e manipular sons através do uso da informática do que fazer experimentos à Mutantes e sair por aí esfregando lápis em cima de fitas de rolo. Porém, acho que a abundância de tecnologia tem sido um dos fatores principais que chateiam os ouvintes de modo geral, provocando uma igual avalanche de projetos musicais fracos em sua essência e pretensiosamente poderosos em sua forma.

Eu sempre cito para meus alunos universitários o exemplo do seriado Chaves/Chapolin. Imagino que a grande maioria dos leitores já deva ter assistido ao menos a um punhado de episódios da referida atração televisiva e que desse universo de espectadores boa parte se identifique com o mesmo e, inclusive, o cultue (prova disso é a quantidade de comunidades
que existem no Orkut relacionadas a esse tema). Pois bem, fazendo uma analogia com o meio musical, por que será que uma série que foi produzida com baixíssimo orçamento e paupérrimos recursos tecnológicos principalmente se compararmos às orgias tecnológicas desenvolvidas por Hollywood) consegue atrair tanta atenção e despertar tanto interesse, devoção e carinho do público? A resposta é simples: qualidade criativa de idéias. Sinto falta dessa criatividade na música atual, a qual perdeu um grande aliado: o vinil. Sim, pois em sua época de ouro (que eu arriscaria situar entre as décadas de 60 até 90), o vinil era deliciosamente apreciado. Quando comprávamos um vinil novinho em folha, como era prazeroso sentir aquele cheirinho de disco novo, abrir a embalagem, examinar e manipular tanto a bolacha quanto a capa e encartes e colocar a agulha para funcionar. Até os chiados, cliques e pulos eram míticos.

Frase 01

Por outro lado, fomos gradualmente caminhando para um reducionismo. Primeiro em tamanho e forma, depois em economia de detalhes (quantos CDs são vendidos por aí com um encarte simples e incompleto de míseros 12×24 cm), até chegarmos ao reducionismo absoluto em que o encarte não passa – quando existe – de uma imagem em JPG com um punhado de kbytes.

Não estou – de modo algum – dando uma de “velho saudosista”, daqueles que ficam reclamando de tudo e dizendo que “no meu tempo, sim, tudo era melhor”.
Agora, com certeza, não foi o preço de venda ao consumidor direto o único elemento que contribuiu e contribui cada vez mais para o desinteresse do público.
O custo dos vinis era mais atrativo, assim como sua riqueza de detalhes, além, como já mencionado, da própria satisfação que o ouvinte sentia em manipular fisicamente a obra, mesmo sabendo-se que sua durabilidade e robustez não eram das melhores. A música em si nunca existiu fisicamente, foi sempre virtual.

Nunca pudemos segurar uma música com as mãos. É como o ar: existe, sentimos, mas não tocamos nele. Ao mesmo tempo em que a difusão e a produção da música se democratizaram de forma avassaladora, o interesse pela aquisição diminuiu consideravelmente. Veja bem que o desinteresse não é de todo pela audição, mas sim pela aquisição. Música virou artigo de domínio público. E esse dado preocupante é sentido principalmente na nova geração de ouvintes que já cresce na era MP3 e muitas vezes desconhece o esforço mental, emocional e econômico necessário para se produzir um álbum.

A construção coletiva e difusão de conhecimentos refletida em idéias bem sucedidas como Orkut, MySpace e You Tube são provas dessa revolta do consumidor
versus gravadoras (principalmente contra as majors). Já que o único recurso de sedução que nos restou é a própria música em si, devemos ter muito mais cuidado e capricho se quisermos obter resultados satisfatórios no mercado. Realmente, não sei se o futuro será a distribuição livre e gratuita de faixas, promos e álbuns. O artista, então, teria como fonte de renda souvenirs, participação em campanhas publicitárias e cachês artísticos recebidos por apresentações. O que disse acima é mera especulação, porque ninguém sabe ao certo onde isso tudo vai parar.

De qualquer modo, sinto que estamos voltando a valorizar periféricos vintage analógicos quando comparados com synths virtuais ou processadores de efeitos via plug-ins. Será o vinil a “novidade” do futuro? A Phoenix que ressurge das cinzas e deixará nosso universo musical mais colorido? Quem viver, verá…


Ticiano Paludo é produtor musical, publicitário,
músico, compositor e sound designer. http://www.pontowav.com.br/hotsite/Indextp.htm |
tpaludo@uol.com.br

 

Cada vez mais consumidores aficionados por música aderem à volta do vinil. Os motivos apresentados vão desde uma suposta qualidade superior à do CD até a apresentação gráfica das capas.

Há uma frase que qualquer pessoa que trabalha com música já ouviu em algum momento: um executivo de gravadora teria afirmado que, na verdade, não vendia música. Vendia apenas os discos. O que havia lá impresso era apenas uma desculpa para colocar o produto nas lojas.

Mas a música se libertou dos discos – todos eles, CDs ou vinis – e ganhou as nuvens da internet. A indústria que não ligava para a música e só vendia aqueles pedaços de plástico sofreu um golpe que até hoje não foi absorvido. Agora, as notas musicais serviam para vender IPods e similares, em arquivos comprimidos nos bits do formato MP3.

Só que os players de MP3 não precisavam das músicas para ser vendidos. E, por ironia, a partir do momento em que as pessoas não precisaram mais pagar pela bolacha, preferiram não pagar também pela música gravada. Ainda que não tenham deixado de comprar arquivos musicais em lojas virtuais, as pessoas enchiam seus IPods, MP3 players e celulares com os arquivos que circulavam pela internet de graça.

Outros movimentos aconteceram no mercado da música. Não são poucas as reportagens e análises acadêmicas que mostram que o show se tornou o motor da indústria musical. Hoje, os músicos gravam para divulgar o show. Antes, faziam show para divulgar os discos. No entanto, de alguns anos pra cá, começou um movimento de revalorização do vinil.

Paixão pela música

Se fosse feita uma pesquisa para determinar o perfil do consumidor de vinil, provavelmente se constataria que a maioria realmente se importa tanto com a música gravada nele como com a qualidade técnica do som, ainda que não seja ponto pacífico a superioridade do vinil em relação às mídias digitais. Geralmente são pessoas que tanto consomem como trabalham com música. “Não tem nada a ver com romantismo. É porque o som é melhor mesmo. Você ouve com o corpo inteiro”, defende Beto Bruno, vocalista da banda Cachorro Grande. A banda sempre lança uma tiragem em vinil de seus álbuns, inclusive o recém-lançado Costa do Marfim.

Para gravar, Beto não tem preconceito contra o digital. Mas o álbum Cinema, por exemplo, foi gravado em fitas de duas polegadas. “Depende do disco, do que você quer. Mas nos últimos dois anos a coisa melhorou muito no digital. Mudou pra melhor. O som do Cinema pedia isto (gravação analógica)”, coloca o vocalista. No Costa do Marfim, no qual a banda, produzida por Edu K, flerta com o eletrônico, a gravação foi totalmente digital. Ainda assim, a Cachorro Grande não abre mão da tiragem em vinil. Beto tem restrições ao produto brasileiro e prefere fazer o corte na Europa. Além disso, ele ressalta a importância de uma masterização específica para as bolachas. “Independente do estilo de som, tem que ter”, reforça.

O jornalista e DJ Ramiro Zwetsch também defende o som do vinil. “Gosto mais, ainda que tenham estudiosos que digam que o ‘melhor CD’ tem um som melhor que o do ‘melhor vinil'”, diz, se referindo a uma hipotética comparação entre os dois formatos nas melhores condições possíveis.

“Fala-se muito em uma volta do vinil. Discordo. É uma volta dos que não foram. O tempo ‘desmascarou’ o CD. Ele não é tão interessante como objeto e o que ele tinha de bom, que é ser portátil, foi superado quando chegou o MP3. Quem não quer ocupar espaço em casa pode usar MP3, mas para quem gosta de som, de música, o vinil é mais atraente”, argumenta o jornalista.

Como DJ, Ramiro ressalta que vários já preferem usar o computador. Principalmente pela possibilidade de poder levar todo o acervo, mas ele gosta de trabalhar mesmo com os discões. “Acho mais divertido improvisar com o que eu tenho. Desafia mais”. Ramiro edita o site de música Radiola Urbana e acabou de abrir a Patuá Discos com o sócio Paulão, que é DJ também, e se mostra otimista. “O vinil é a mídia relacionada à música que mais cresce. Começamos vendendo em feiras de vinil. Hoje nós dividimos o espaço com uma floricultura. Não temos placa na fachada. Apenas uma sinalização na calçada. Temos pouco público espontâneo, mas já vendemos 700 discos em dois meses de funcionamento. Mais ou menos 80% do que vendemos é disco usado. Com discos novos trabalhamos em uma escala menor”, ressalta Ramiro.

Vinil: um bom negócio?

O que Ramiro percebe no dia a dia já começa a chegar nas grandes estatísticas. Dados dos mercados fonográficos mais desenvolvidos – os EUA e a Inglaterra – dão conta de um crescimento por volta de 30% nas vendas das bolachas no ano de 2013 em relação a 2012. No Brasil, a Polysom, única fábrica de discos de vinil da América latina, teve um aumento de mais de 60% nas encomendas em relação a 2012, com 59 mil discos vendidos. A fábrica, que havia sido fechada em 2007, foi reativada em 2010. “Podem nos chamar de malucos, mas não tínhamos a menor expectativa de obter retorno financeiro com a reativação da Polysom. Achávamos que, na melhor das hipóteses, iríamos empatar”, comemora João Augusto, consultor da Polysom e diretor presidente da gravadora Deck.

Antes de assumir a empreitada, João chegou a ser desaconselhado de prosseguir por uma consultoria, mas decidiu assumir o investimento. “Pessoalmente, decidi entrar no projeto por achar que ainda podia correr mais um risco em nome da música – afinal, abrir mão de um alto cargo em gravadora multinacional, dez anos antes, para abrir uma companhia 100% independente já tinha sido um risco enorme, concorda? Fora isso, a turma a minha volta acreditava muito nessa reabertura da fábrica. Foram três anos de investimentos pesados, dúvidas e dificuldades, mas hoje temos orgulho de termos vencido com ousadia e boa administração”, reforça João.

Mas e o som?

Surgido no fim dos anos 1940, o vinil apresentava diversas vantagens sobre o formato anterior, o disco de 78 rotações. Entre elas, um maior range dinâmico (podendo chegar a cerca de 70dB contra os 50dB do 78 rotações) e de frequências (entre 40 e 15.000 Hz mais ou menos) e mais tempo de gravação, chegando a mais de 15 minutos por lado contra pouco mais de três minutos dos 78 rotações.

Em plena atividade, Flávio Senna é hoje um dos grandes técnicos de som do Brasil. Em mais de 40 anos de carreira, boa parte na antiga gravadora RCA, passou por todas as inovações tecnológicas durante este tempo. Com alguns Grammys no currículo, é difícil dizer qual grande artista brasileiro ainda não foi gravado por ele. Flávio é um fã do som e das possibilidades do som digital. Ele não deixa de observar a contradição entre a busca que havia pelo som mais limpo e o uso de uma mídia, em plena era digital, que tem um ruído inerente, como o disco de vinil. Senna acredita que a reprodução digital do som em CD é efetivamente um avanço. “Na época (anos 1970), nós tentávamos gravar o som o mais limpo possível”, ressalta, acrescentando que o vinil tinha características físicas que interferiam nessa pureza.

O técnico de som e diretor do Instituto de Áudio e Vídeo (IAV), Marcelo Claret, ressalta que as concepções de trabalho da época de ouro do vinil para a era digital podem ser bem diferentes. “Mixar para vinil exige cuidados e métodos diferentes do que se faz hoje para CD ou qualquer outra mídia digital”, expõe. Flávio lembra dos rígidos procedimentos de gravação e os cuidados para o corte na época do auge da bolacha. Havia, por exemplo, um controle de qualidade forte na RCA. Isto para que não houvesse diferenças importantes entre o som que saía mixado do estúdio e o que era efetivamente prensado na bolacha. Os técnicos ouviam os discos importados para ter a referência e, quando estavam mixando algum artista mais importante, chegavam a ser feitos cortes de teste de uma faixa para conferir se o som que saía do estúdio atendia aos requisitos técnicos sem interferir nas intenções artísticas de forma radical. “Havia dois lugares que cortavam bem: a RCA e a EMI Odeon. A RCA tinha o Oswaldo Martins, que era um gênio. Inacreditável a qualidade que ele colocava no vinil, porque a matéria prima no Brasil não era muito boa”, relembra o técnico de som.

Claret, que começou a carreira já na transição do vinil para o CD, em 1989, não esconde a preferência forte pelo CD, inclusive enumerando as limitações técnicas do formato vinil. “Em função do ângulo de corte entre os dois canais L/R ter sido convencionado em 45 graus para tentar equilibrar os dois canais e diminuir a diferença de qualidade entre eles, há comprometimento da dinâmica, da imagem estéreo e da extensão de resposta de frequência. Os ruídos de fundo e distorções inerentes ao sistema de leitura por atrito limitam principalmente os agudos; os graves devem ser colocados em mono pelo menos a partir de 200Hz para evitar que a cabeça de corte “pule” fora do disco. Abaixo de 40Hz é fundamental que se coloque filtros Low Cut de alta declividade para que os subgraves e infrassons não sejam registrados no disco. Acima de 16kHz também é recomendado que se faça uma atenuação significativa. O nível de registro dos agudos também deve ser menor. Talvez por isso muita gente ache que o vinil tem ‘mais grave’ do que o CD, por exemplo. Ouvir menos agudo pode dar a sensação auditiva de que temos mais grave. Deve-se utilizar muito menos volume ou seu disco só poderá ter uma faixa por lado; as diferenças de fase entre os canais são muito menos toleradas no vinil”, expõe o técnico e professor.

Claret lembra ainda que o LP nasceu mono. “É importante lembrar que essa mídia depois foi adaptada para o estéreo. Há ainda a necessidade de que todos os equipamentos reprodutores (players de vinil) sejam devidamente calibrados e que tenham motores de velocidade constante. Caso contrário, até o tom da música pode mudar. Com toda a certeza o CD ou qualquer outra forma de registro digital é muito mais próximo ao que se mixa no estúdio do que o vinil”, acrescenta.

João Augusto admite a dificuldade de se registrar determinadas frequências e distribuições de pan no vinil, mas não acredita que isso seja empecilho para uma boa qualidade sonora. “Poucas coisas não são possíveis no vinil, e quando elas aparecem, o operador de corte alerta que terá que diminuir um volume ou fechar um pouco o ‘pan’. Ele também detecta e alerta se houver um excesso de grave ou de agudo. Mas, de forma geral, é possível preparar o vinil com as mesmas masters usadas em um CD”, afirma.

Com relação a formatos de arquivo digital comprimidos, como o MP3, Flávio Senna não tem nenhum pudor em dizer que prefere o vinil. “Cara, nem compara o vinil com isso que ele fica bravo com você”, se diverte. “Esse troço comprimido é pior que tudo. Uma maldade com o som. E o pessoal ainda ouve de fone. Não tem perspectiva, não tem nada. Ai o cara que está acostumado a ouvir isso coloca o vinil em um toca-discos e se apaixona. E o som do vinil é envolvente mesmo. Não duvide disto”, enfatiza. No entanto, Claret já não tem tanta certeza. “Confesso que odeio MP3 ou qualquer outra forma de compressão de dados que admite perdas em relação aos sinais originais. Mas acho que ainda prefiro os MP3 ao vinil”, conclui.

Magia

No final, gostando do som ou não, todos admitem que há um charme no antigo álbum de vinil. “Não gosto do som, mas acho o encarte e a arte gráfica fantástica”, admite Claret. Flávio Senna ainda vai mais longe. “Acho injusto a comparação do CD com vinil. Mas quando você vai ouvir um LP é inevitável pegar a capa, que em alguns casos é uma verdadeira obra de arte, abrir o encarte e você acaba vendo o que está na ficha técnica, aprendendo um pouco mais sobre música. Eu tenho um toca-discos em casa. Quando escuto música por lazer não fico prestando atenção se o som é isso ou aquilo. Outro dia o meu amigo Manoel Tavares (também técnico de som) me deu um vinil do Stevie Wonder e sabe que eu fiquei mais feliz que se ganhasse um CD? Abri até um vinho para escutar”, completa Flávio.

Fabricando sons de plástico

João Augusto, consultor da Polysom, fala com detalhes sobre a fabricação dos vinis nacionais e a evolução em alguns processos de produção.

Houve algum aperfeiçoamento tecnológico na produção de discos em vinil em relação à época do auge?

Em termos de equipamentos, não houve muita evolução. As mesas de corte são as mesmas (Neumann ou Scully), as prensas idem, mas na galvanoplastia, formada por banhos eletrolíticos com química de alta precisão, foram criados sistemas de controle efetivos para o alcance de bons resultados. É ali que a fábrica tem que ter atenção contínua.

Há alguma matéria prima que tenha dificultado o trabalho de manter a fábrica funcionando? Tiveram que substituir algum material?

Frequentemente comparo fábrica de vinil com um restaurante: se quiser ter qualidade, é preciso usar bons ingredientes. Mas antes mesmo de escolhermos esses ingredientes, precisávamos aprender os melhores processos para fazer discos de qualidade. As fases mais importantes da produção de um disco são o corte do acetato, a galvanoplastia e a prensagem. Depois da reativação, verificamos que estávamos bem no corte e na prensagem, mas a galvanoplastia era um terror. É ali que nascem as matrizes e a Polysom não estava dominando bem o processo. Passei a fazer contato com outras fábricas do exterior, na tentativa de descobrir onde estávamos errando, e visitei algumas delas, sem conseguir os resultados, até que fui apresentado a Desmond Naraine, dono da Mastercraft, empresa de Nova Jersey – EUA, especializada em galvanoplastia, que atendia 60% das fábricas americanas. Desmond foi de uma gentileza e generosidade descomunais e abriu todo o seu processo para mim. E é esse sistema que está implantado hoje na Polysom, com enorme sucesso.

Foi difícil achar mão de obra para a fábrica? Aproveitaram o conhecimento dos antigos donos?

Os antigos donos foram fundamentais na reativação e um deles, Nilton Rocha, um gênio da mecânica e da hidráulica, nos premia com seu trabalho até hoje e ainda nos homenageia treinando jovens para as diversas posições. Além deles, foi fundamental a ajuda do Desmond, da Mastercraft; de Leandro Gonzales, um argentino, engenheiro de corte de acetato, estabelecido em Nova York; e Jay Fairfax, gerente de operações da maior fábrica da California, a Rainbo. A essas três pessoas a Polysom deve grande parte do seu sucesso.

Os novos discos são feitos mais a partir de masters digitais ou analógicos?

Masters analógicos significam tapes. Alguns dos relançamentos da Polysom foram feitos de remasterizações feitas a partir dos tapes, mas o formato mais comum hoje são os arquivos em 24bits com resoluções variadas. A qualidade é equiparada a dos tapes.

O que o disco de vinil representa hoje nas vendas e nas estratégias comerciais da Deck? E no mercado fonográfico em geral?

Deck e Polysom são empresas completamente independentes. O que as ligou no início foi o fato dos donos da Deck adquirirem e reativarem a Polysom motivados por sua própria necessidade de produzir os discos de vinil de seus artistas. A Polysom se relaciona com a Deck da mesma forma que faz com a Universal, a Sony, a Warner e a Som Livre. Licencia seus discos e distribui para o mercado no formato vinil. A curva é de crescimento e tudo indica que não tem mais volta.

Há artistas da Deck com um “perfil vinil” e outros não? É possível fazer este tipo de distinção?

Sempre há artistas que geram mais procura de vinil do que outros. A Deck tem feito todos os lançamentos possíveis e é natural que alguns tenham mais êxito do que outros.

Como é feito o disco de vinil

1- O áudio entregue pelo cliente é analisado pelo operador do corte de acetato para verificar se atende aos princípios básicos para um corte sem distorções ou “pulos”. Algumas coisas podem ser corrigidas por ele mesmo, no momento do corte, outras não.

2- O operador do corte transfere o som de cada lado do disco, com as especificações anotadas, para um acetato de 14 polegadas. Após o corte, ainda verifica no microscópio (tão importante quanto a verificação auditiva) se os sulcos estão preservados dentro da imagem que se recomenda. Aprovado o corte, o acetato é imediatamente conduzido ao setor de galvanoplastia, para transformá-lo em matrizes de níquel que serão colocadas nas prensas.

3- Na galvanoplastia, os acetatos passam por vários processos até terem a superfície gravada coberta por um banho de prata. Em seguida, são colocados em um primeiro banho de sulfamato de níquel, que, por suas características especiais, é chamado de “Banho Flash”. Após cerca de 40 minutos de processamento por eletrólise, a peça é transferida para outro banho de sulfamato de níquel, com outros parâmetros, chamado de “Banho de Engrossamento”, onde, depois de quase duas horas, é gerada a primeira peça metálica, um negativo do disco chamado “Original”.

4- Este Original, depois de passar por outros processos, volta ao Banho de Engrossamento para gerar a segunda peça metálica, a “Madre”, que é ouvida com uma agulha especial para se verificar sua integridade e qualidade. Uma vez aprovada, ela volta ao Banho de Engrossamento para gerar as matrizes, que serão perfiladas nas bordas e no centro para serem colocadas nas prensas.

5- As prensas são hidráulicas e fazem os discos “nascerem” de misturas onde o PVC é o principal elemento. Na parte de baixo, fica a pastilha onde se coloca a matriz do lado A do disco. Essa pastilha é uma peça de quase 50 quilos (no caso dos LPs), feita em aço, cujo interior parece um labirinto por onde passam o vapor gerado pela caldeira e a água fria. Em cima, é colocada a matriz do lado B. Os rótulos, antes de irem para a prensa, ficam cerca de 24 horas em um forno especial com temperatura média de 90 graus.

6- Já na prensa, o operador coloca o rótulo do lado A, com a face para baixo, a massa quente de PVC, que é “cuspida” pelas extrusoras na quantidade exata, o rótulo do lado B voltado para cima retira as duas mãos do interior da prensa e aciona seus dois botões ao mesmo tempo. Com temperatura aproximada de 160 graus e peso equivalente a 100 toneladas, as pastilhas se fecham e permanecem cerca de 20 segundos fechadas, para que a água fria condense a massa. Tão logo as pastilhas se abrem, o prensor retira o disco, corta sua borda em uma peça giratória equipada com uma super-lâmina, coloca-o dentro do envelope (plástico ou papel) e o deposita para repouso, pelo mínimo de 8 horas, em caixas de madeira especiais que comportam até 100 discos, com separações a cada 10.

Fonte: assessoria de imprensa da Polysom

Miguel Sá |
redacao@backstage.com.br |
Fotos: Divulgação

Abaixo três vídeos sobre a produção de um disco de vinil:

Matérias publicadas respectivamente nas revistas:

Backstage edição 150 – Maio de 2007

e edição 243 – Fevereiro de 2015

Para ler a edição 243 completa, clique na imagem abaixo:

 

 

 

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