Iluminação Cênica: David Live

David Bowie sempre será uma referência e um ícone para a cultura pop, assim como para a história da iluminação cênica. Foram múltiplas as suas contribuições ao desenvolvimento dos espetáculos e interações cênicas presentes nas apresentações teatrais-musicais que ocorreram com mais ênfase no início da década de 1970.

David Robert Jones, nascido em Brixton, Londres, no dia 8 de janeiro de 1947, seria eternizado como David Bowie a partir do lançamento de uma canção Mod intitulada Can’t Help Thinking About Me no dia 14 de janeiro de 1966 (lançada por David Bowie & The Lower Third). Esta data marca não somente o surgimento de mais um artista na efervescência pop da década de 1960; marca a transformação de um aplicado estudante de artes, compositor arrojado e multi-instrumentista em uma estrela que revolucionaria a música e a cultura pop, na década seguinte.

A transformação de David Bowie em ícone ocorreria no segundo semestre de 1971. Com a banda que viria ser denominada de The Spiders From Mars (Mick Ronson na guitarra e backing vocals, Trevor Bolder no baixo e Mick ‘Woody’ Woodmansey na bateria, além das contribuições posteriores do discreto Mike Garson nos teclados – e que oficialmente não fazia parte da Spiders From Mars), Bowie faria a primeira apresentação como Ziggy Stardust no dia 10 de fevereiro de 1972 em um pub denominado The Toby Jug, em Tolworth (subúrbio de Londres, Inglaterra).

A Diamond Dogs Tour seria um divisor de águas na história dos palcos do rock’n’roll, pela sua complexidade (seis dias para a montagem) e pelo resultado, único (inspirado, visualmente, na obra de George Grosz). A iluminação ficou a cargo de Jules Fisher, renomado iluminador da Broadway que apresentou Ravitz a Bowie e foi decisivo para viabilizar as ideias arrojadas e ambiciosas de Bowie.

A Diamond Dogs Tour, mesmo focada na Obra de Orwell, também deveria incluir elementos urbanos dos discos anteriores – a era Ziggy Stardust, com os sensacionais Pin Ups (1973), Aladdin Sane (1973), The Rise and Fall of Ziggy Stardust… Para a iluminação, canhões seguidores, elipsoidais, e mesmo neon e lâmpadas fluorescentes foram utilizadas para a criação de um cenário surreal, caótico e vibrante, que retratava uma sociedade degradada e manipulada – em uma cidade chamada Hunger City – cujos elementos eram apresentados e revelados, brilhantemente.

 Após a gravação de Young Americans (1975), elaborado na concepção que Bowie descreveu como Plastic Soul (referências à Soul Music e ao Funk Americano, e também uma alusão à mesma influência da música negra americana no rock’n’roll inglês definida por Paul McCartney para o disco Rubber Soul – The Beatles, 1965), Bowie viajaria para Los Angeles (EUA) para a gravação de Station To Station (1976). Desse magnífico álbum – influenciado pela filosofia de Nietzsche, referências aos pensamentos de Aleister Crowley, misticismo, totalitarismo – e após o lançamento dos brilhantes Low e Heroes (ambos em 1977) desdobrariam duas turnês: On Stage World Tour – também denominada Isolar (realizada em 1976) e a subsequente Isolar II (em 1978). Nelas, lâmpadas fluorescentes proporcionavam um cenário insólito e futurista, minimalista e urbano, complementado por refletores que enalteciam sensações e dramaticidade.

 Após o conceitual álbum Lodger (1979), e o fim do período de reabilitação e da ‘Trilogia de Berlin’, Bowie lançaria três discos que mesclavam Rock’n’Roll com elementos de Dance Music, Funk, Blues e mesmo Reggae: Scary Monsters (and Super Creeps) (1980), Let’s Dance (1983) e Tonight (1984). Ele voltaria a excursionar com a contribuição de um novo Lighting Designer, Allen Branton (que havia trabalhado na Show.Co e com The Beach Boys, Mountain e Diana Ross, entre outros), recrutado para outra ambiciosa turnê: Serious Moonlight World Tour (1983). Nela, a iluminação acompanhava as dinâmicas de palco, por meio de 40 Vari*Lites (moving heads) – uma extravagante inovação para o período – organizados e controlados para a produção de cenas bem definidas, com sessenta cores diferentes. Como resultados, diversas cenas, backlighting com mais austeridade, contrastado com cores quentes e sensuais que se alternavam e se mesclavam às luzes estroboscópicas, alinhadas a outras, perpendiculares ao palco.

Mark Ravitz voltaria a trabalhar com Bowie, e juntos desenvolveram um palco que mesclaria elementos do Clássico e do Modernismo. Como resultado, quatro enormes colunas de polietileno translúcido conectadas a estruturas superiores (vergas) formando arcos neoclássicos, um localizado à direita do palco, ao lado de uma mão gigante, e outro à esquerda, ladeado por uma brilhante lua em estágio crescente.

Branton também conduziria a Glass Spider Tour (1987), turnê de lançamento do álbum Never Let Me Down, um marco nas estruturas de palco – sendo necessários 43 caminhões para o transporte de 360 toneladas de equipamentos. Associado a uma nave espacial, o palco primava pelo uso de andaimes para vários níveis, por onde os dançarinos e inclusive os músicos se alternavam em posições e alturas diferentes, resultando em um espaço cênico que se diluía pela imponente estrutura superior, formada por uma gigantesca aranha inflável com aproximadamente 80 metros de diâmetro e suspensa a quase 40 metros de altura, com tentáculos iluminados por mangueiras com 20 mil lâmpadas no total e que permitiam mudanças de cores. Além disso, outras mil lâmpadas integravam refletores e outros instrumentos de iluminação cênica, e foi essa uma das primeiras produções a utilizar telas de 5m x 6m para a projeção de imagens do palco e do público.

No fim da década de 1980, e após dois anos com a superbanda Tin Machine, Bowie planejaria uma outra turnê mundial, e que seria a primeira a incluir o Brasil. Willie Williams foi o Lighting Designer da Sound + Vision Tour (1990). Um conjunto minimalista estruturado por quatro totens principais para a iluminação do palco, também composto por telas retangulares onde eram projetados clipes ou filmes pré-gravados, assim como imagens da apresentação (palco e público), ladeado por duas telas complementares para close-ups de Bowie.

Já na metade da década de 1990, e após o lançamento dos intrigantes e criativos Black Tie White Noise (1993) The Buddha of Suburbia (1993) e Outside (1995), Bowie dividiria o palco e a direção de iluminação com a banda Nine Inch Nails, sendo convidado o Lighting Designer LeRoy Bennett para a turnê Outside Tour (1995 – 1996). Bennet também complementaria a última etapa da turnê Outside Summer Festivals Tour (1996).

Com o lançamento do arrojado Earthling (1997), cuja sonoridade exploraria elementos da Drum’n’Bass e música eletrônica, Bowie planejaria uma outra turnê mundial, com o Lighting Designer Gary Wescott na direção da iluminação cênica. A Earthling Tour (1997) seria a segunda – e última – turnê de Bowie no Brasil (abordada em postagem de 2013 no Blog da Backstage, sob o título Sound And Vision).

Em 1999, Bowie lançaria Hours…, cuja turnê seria iluminada por Tom Kenny, Lighting Designer que acompanharia Bowie desde então. Já nos anos 2000, Bowie ainda realizaria as turnês de lançamento dos álbuns Heathen (2002) e Reality (2003). Para ambas, elementos minimalistas ofereciam aos palcos uma iluminação mais uniforme e intensa, diferenciada em cada turnê pela presença de projeções abstratas e iluminação com intenções arquiteturais (valorização de formas e relevos), apresentações em espaços menores e detalhes cênicos sutis.

Bowie gravou álbuns brilhantes e realizou turnês memoráveis. Se os resultados das gravações em estúdio demonstram a diversidade de sonoridades que consolidaram esse artista como um dos mais arrojados e influentes de todos os tempos, as turnês trouxeram novas texturas para o universo dos palcos, onde Bowie sempre foi a estrela de maior magnitude.

Soube como poucos absorver influências e aplicá-las nas suas obras e sempre com originalidade, incorporando elementos diversos e apresentando algo novo, único e irretocável. Bowie nunca se curvou às exigências ou demandas do mercado fonográfico; ao contrário disso, determinou as direções pelas quais a música se desenvolveria nas décadas seguintes, influenciando milhares de músicos.

David Bowie permanecerá como um ícone incomparável; influenciador e inspirador; singular e plural em muitos aspectos; precursor de mudanças, estilos, sonoridades e fusões próprias; mestre e gênio, que trouxe sofisticação ao rock’n’roll, com arranjos ora intrincados, ora minimalistas, em composições brilhantes e atemporais.

Nos palcos, proporcionou emoções para incontáveis públicos, e, com Lighting Designers também brilhantes, propiciou inovações na mais profunda essência desse termo, transformando espaços cênicos em celebrações e solenidades artísticas, arrojadas e ambiciosas. Abraços e até a próxima conversa!

Matéria publicada na revista Backstage edição 256 – Março de 2016
Para comprar esta edição completa, clique na imagem ou no link abaixo:

COMPRE ONLINE ESTA EDIÇÃO IMPRESSA
http://goo.gl/y4cKoV

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s