Profissões do Backstage: Ricardo Pereira: Guitar Tech

Profissões do Backstage

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Fotos: Arquivo Pessoal / Divulgação

Ricardo Pereira

Como sempre fazemos nessa coluna, procuramos conhecer um pouco do nosso entrevistado. Ricardo, fale-nos um pouco da sua formação, quais cursos já tomou?

Sou músico, guitarrista desde os 13 anos, formado pela vida, e mais tarde me graduei em administração de empresas com especialização em auditoria. Tomei vários cursos nessa área, mas a música sempre esteve presente em minha vida, me proporcionando grandes oportunidades.

Qual a diferença entre o Roadie comum e o Guitar Tech?

O Guitar Tech executa atividades mais específicas relacionadas ao universo da guitarra, focado somente no guitarrista, como regulagem e manutenção do instrumento in loco, programação dos processadores, alinhamento do sistema de guitarra, microfonação. Ele também cuida da estética do som e empreende automações para o guitarrista durante o evento. O Roadie comum é o responsável técnico que funciona como um elo entre todos os setores do backstage. montagem do backline, passagem de som e assistência durante o evento.

Descreva um dia de trabalho de um Guitar Tech?

Durante os dias da semana eu divido minha rotina de acordo com a demanda. Atendo clientes, orientando na organização de seus sets. Em seções de gravação de áudio, trabalho em todas as etapas no processo de colheita das guitarras que envolvem a escolha e configuração dos instrumentos, microfones, processadores, pedais, prés, amplificadores e gabinetes a serem usados. Na estrada, começo a rotina de um dia de show organizando o set de guitarras em etapas. Inicialmente, verifico todo o meu periférico para saber se está tudo em ordem – conexão física dos equipamentos, bom funcionamento dos cabos e jacks, configuração digital de parâmetros, etc. Antes de plugar o sistema (pré, processadores, controladores e amplificadores de guitarra), conto com o apoio de um eletrotécnico que acompanha a banda, para fazer uma checagem no sistema AC, que alimenta o sistema de guitarra. Quando detectamos problemas de ruídos, na ordem de 60 ciclos, é comum identificarmos como DDP (diferença de potencial), o que normalmente ocorre pelo fato de o amplificador estar em uma fase diferente do resto do sistema. Solucionamos o problema colocando todo o sistema na mesma fase. Na sequência, conecto os processadores e o computador que uso para fazer as automações durante o show, microfono os amplificadores, conecto os prés, os canais de linha, o transmissor e as mandadas aos amplificadores de guitarra, através de um multipino que leva o sinal dos processadores aos amplificadores e traz de volta para os prés através dos microfones. Partindo para as guitarras e violões, faço a revisão completa de cada instrumento (regulagem de tensão, regulagem de oitavas, substituição de cordas e limpeza). É importante salientar que é muito comum a tensão das cordas serem afetadas por causa da temperatura local. Para manter um padrão, é necessário regular show a show. Plugo os Bodypacks das guitarras e violões, monitoro a frequência dos transmissores para evitar interferências e checo se os quatro canais da guitarra estão todos em fase. Durante o show, fico 100% focado no artista trabalhando na estética do som, fazendo automações de volumes, efeitos, equalização e compressão no timbre da guitarra. Esse processo é feito em tempo real e exige muita concentração e entrosamento. Troco os presets dos bancos e faço uma segunda guitarra quando necessário. Normalmente durante o show não percebo o tempo passar!

Ricardo Pereira Foto 2

Antes mesmo de se tornar Guitar Tech você já era conhecido na sua cidade no interior da Bahia pelo talento de replicar timbres. Nos conte sobre isso.

Comecei a tocar guitarra aos 13 anos, influenciado por amigos que já tocavam em bandas de garagem e, quase diariamente, frequentava a casa de um grande amigo guitarrista, que morava na rua de trás e possuía uma discografia maravilhosa. Conheci praticamente tudo sobre música ali. Era início da década de 90. Aprendi a ouvir SRV, Gary Moore, Joe Satriani, Steve Vai, Michael Schenker e praticamente todos os GUITAR AXES de sucesso até aquela época. Naquele ambiente, o assunto quase sempre era o equipamento dos guitarristas. Guitarras, pick-ups, amps, pedais, mics, as características sonoras de cada equipamento e a preferência de cada um. Aos 17 anos, já tocava profissionalmente em bandas locais e trabalhava paralelamente como auxiliar em um estúdio de gravação de áudio da minha cidade. Dentro desse cenário, desenvolvi a habilidade de replicar timbres. Boa parte dos guitarristas de baile da minha região chegava à minha casa com um processador digital nas mãos, pedindo para replicar um determinado timbre de guitarra. Foram anos assim. Era apenas um processador digital, um cubinho, uma guitarra e um resultado bem parecido com o original. Na época, eu tinha pouco acesso a bons equipamentos. Eram muitas limitações. Aprendi a trabalhar com muito pouco e a obter bons resultados. Lembro-me de começar a programar um processador de guitarra pela manhã e de repente meu pai estava batendo na porta do quarto me pedindo para ir dormir, porque já passava da meia noite. Investi muito tempo de qualidade nessa atividade. Cada timbre que eu fazia me dava a oportunidade de aprender mais e descobrir novos caminhos. Comecei a entender que não bastava só um timbre bonito aliado a um bom gosto. Teria que soar bem!

A programação de pedal boards e pedaleiras é quase uma arte, empresas como LA Sound Design e a brasileira Guitartech fazem disso seu nicho de negócio. Você tem uma oficina e presta serviços semelhantes?

Embora seja este um dos aspectos de minha vida profissional que mais me fascina, minha atual carga ocupacional não me permite dedicar o quanto gostaria. Viajo muito, e a vida na estrada não me proporciona tempo suficiente para administrar um negócio físico. Todavia, tenho prestado consultoria a um bom número de guitarristas, auxiliando-os na escolha de equipamentos e montagem de sistemas.

Ricardo Pereira Foto 3

Ainda falando em pedalboards, você projeta e monta sistemas de pedaleiras e racks, quais as dificuldades de fazer isso aqui no Brasil?

Acredito que uma das maiores dificuldades são os preços absurdos dos equipamentos praticados aqui no Brasil, devido às altíssimas taxas de importação, despachantes aduaneiros e fretes. Certa vez, ouvi uma pessoa dizer: “Não existe equipamento difícil, existe equipamento caro”. Com a globalização, o acesso à matéria-prima ficou fácil, com a desvalorização da moeda, não! O que, na maioria das vezes, limita muito um orçamento na execução de um projeto bacana.

FraseQuais os principais problemas que os guitarristas têm com seu som e sistemas de pedaleiras?

Basicamente, configuração. Sou guitarrista e tenho uma boa rede de contatos de guitarristas. Posso afirmar que muitos deles trabalham empiricamente, de forma intuitiva. Existe uma grande dificuldade em saber noções básicas sobre equalizar, comprimir e usar os efeitos da forma correta por falta de pesquisa, talvez por não ler um manual do equipamento ou, simplesmente, por não entender o lugar da guitarra na mix. Infelizmente, o reflexo desse procedimento gera problemas na entrega do som!

Uma pergunta relacionada aos monitores, que dicas você daria para um guitarrista tocar usando in-ears num palco sem amps nem caixas?

Converse com o seu técnico sobre a concepção do seu timbre de guitarra e a forma como você gostaria de ouvir seu instrumento. Suas aspirações, aliadas ao conhecimento do técnico, serão revertidas em resultados positivos para você. Um bom fone, além de uma fonte sonora, é um excelente isolador de ruídos externos e não só oferece a vantagem de uma mix ao seu gosto, como lhe dá o conforto de ouvir em volumes mais agradáveis, colaborando também com a preservação da sua saúde auditiva.

Existe uma máxima dos guitarristas que certos amplificadores só timbram alto, mas já vi setups gringos com amps pequenos com ótimos microfones e timbres matadores. O que é mito e o que é verdade?

Bom, acredito que o mito seja gerado pela falta de informação. Tomando como referência e analisando do ponto de vista de um timbre clean plugado na frente de um amplificador valvulado, grande parte dos guitarristas preferem esses equipamentos, porque funcionam também como geradores de timbre e moldam a estética do seu som. Considerando parte do funcionamento das válvulas de power, elas atuam no timbre original da guitarra, comprimindo os picos, gerando harmônicos de cada frequência inicial, transformando assim o resultado final do timbre. O interessante é que os amplificadores valvulados, quando trabalhados em volumes altos, começam a elevar o nível de compressão do sinal por incapacidade de amplificá-lo, gerando a distorção. Poderíamos imaginar, então, que existe uma zona de transição entre o sinal clean e o distorcido do amplificador, que acontece quando o som limpo começa a ser rompido, e é justamente essa zona de transição que é desejável, para se obter um resultado definido com o punch e a clareza das válvulas. Amplificadores valvulados pequenos chegam com facilidade a esse ponto de transição e saturam as válvulas de power muito rápido, o que, consequentemente, promove maior flexibilidade para se trabalhar com um volume baixo e obter bons timbres. Por esse motivo, são aclamados atualmente, já que manter o palco com o mínimo de volume possível é salutar. O ponto negativo é que se o guitarrista injetar pedais de distorção high gain em amps de pequena potência, teremos uma tendência a ter um timbre ilegível e, comprimido ao extremo, levando o músico que gosta de usar distorções mais saturadas a optar por amplificadores mais potentes, que trabalhem com folga e, consequentemente, a volumes mais altos. Se o guitarrista tem preferência por timbrar com amplificadores de alto ganho, nos dias atuais, a tecnologia nos favorece com um atenuador de potência, que é um equipamento bem utilizado por quem trabalha com stacks e amplificadores pesados, funcionando de forma surpreendente com várias opções e marcas no mercado. Esse equipamento é colocado entre o output speaker do amplificador e os alto-falantes, atuando como volume master depois do power, conservando o ganho e a característica do som liberado das válvulas de saída do amplificador, mantendo a integridade do timbre e transformando o sinal em volume muito mais baixo, ao gosto do técnico ou guitarrista.

Ainda falando sobre monitoração em shows, quais dicas você daria para os técnicos para mixar para guitarristas que usam in-ear (essa pergunta é sobre setups sem amp no palco)?

Acredito que uma boa mix, completa com todos os elementos, stereo com pans, agrega valor, quando o técnico conhece o gosto e tem uma boa referência sobre o timbre do guitarrista. Coisas simples como conversar com o músico sobre esses detalhes fazem toda a diferença.

Você é formado como administrador de empresas, mas adora música, quais dicas você daria para os profissionais do backstage para gerenciarem as suas carreiras. O que é mais inteligente: abrir uma empresa ou ser informal?

Não considero a informalidade uma opção, sob nenhuma hipótese. Com um eventual aprimoramento das regras que regem as relações de trabalho, tanto o contrato de trabalho quanto a abertura de uma empresa podem ser alternativas satisfatórias.

Um fato para quase todos que fazem monitor é que os músicos em sua maioria não sabem dizer o que querem ou quais problemas estão em suas vias, e com isso colecionamos pérolas como: “me dá mais estéreo”, “coloca mais peso”… Diga-nos as suas favoritas?

(Risos) Já ouvi coisas do tipo: “grave é o fino ou o grosso?”, “dá um grau aí!” e por aí vai… são muitas as crônicas da estrada.

Alguns eventos marcam a nossa carreira quase como um divisor de águas, conte-nos quais foram eles e quais as pessoas que fizeram a diferença em sua carreira e por quê?

Durante minha caminhada até aqui tenho tido a oportunidade de conviver com excelentes profissionais e pessoas maravilhosas que me presentearam com a oportunidade de aprender mais através do nosso convívio, mas posso salientar, como um dos principais divisores de água na minha carreira profissional, o fato de ter sido apresentado, em 2006, ao Durval Lelys, da banda Asa de Águia. Durval precisava de alguém que regulasse suas guitarras, pensando na sua forma de tocar. Um grande amigo que trabalhava com ele me procurou e perguntou se eu tinha interesse em tentar. Felizmente, consegui entregar um resultado que foi considerado satisfatório. Acabei ficando com esse trabalho, que, posteriormente, se estendeu a programações de timbres de guitarra. Entre visitas periódicas de manutenção, em 2008, fui convidado a estar na estrada trabalhando como seu Guitar Tech. Essa condição abriu portas e deu visibilidade ao meu trabalho em nível nacional, o qual muitos sequer sabiam que existia. Sou-lhe muito grato!

Qual conselho você daria aos leitores que queiram seguir a carreira como Guitar Tech?

Estude e se desenvolva. Corra atrás da informação e procure conhecer tudo sobre a função. Pesquise tudo e todos os equipamentos que puder referentes à sua área de atuação e áreas correlacionadas. Esforce-se, não desanime. Tenha pensamentos comedidos e nunca ache que sabe o suficiente, pois não sabemos. Haja como uma esponja e absorva tudo que puder. Não subestime o outro, do menor ao maior, todos terão algo de valor para lhe passar. Trabalhe sério e com amor, as pessoas verão isso!

O que falta ainda a você para que se torne um profissional ainda melhor?

Buscar mais conhecimento, adquirir mais experiências, sempre!

Quais são os seus planos para o futuro, onde pretende estar daqui a 10 anos, nos planos profissional e pessoal?

Gostaria de, no futuro, estar onde os valores que eu estabeleci para minha caminhada puderem me levar.

Este espaço é de responsabilidade da Comunidade Gigplace.

Envie críticas ou sugestões para contato@gigplace.com.br ou redacao@backstage.com.br. E visite o site: http://gigplace.com.br.

Matéria publicada na revista Backstage edição 251 – Outubro de 2015

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