Produção na TV: estética aliada ao bom som

Produção na TV

Estética aliada ao bom som

por Luiz de Urjaiss

redacao@backstage.com.br

Fotos: Internet / Divulgação

A produção musical integra todo e qualquer formato de conteúdo multimídia. Dos games aos reality shows, passando pelo jornalismo e todo tipo de dramaturgia, a música sempre terá o papel de enlevar as emoções e sublinhar as ações contidas no conteúdo.

A profissão de Produtor Musical em televisão, especificamente, é um segmento que vive numa crescente demanda em todo o mundo. Impulsionada por plataformas como Youtube eJoão Jacques Vimeo, entre outros modelos alternativos de mercado – além dos já convencionais canais de TV aberta e a cabo –, a área requer uma constante reformulação técnica, ao passo que a ‘polivalência’ no assunto torna-se fator indispensável para a obtenção de um bom resultado final.

Com o crescimento dos reality shows e o avanço das tecnologias de informação, fica evidente a importância de um bom trabalho sonoro. Para tanto, de acordo com o produtor musical Alexandre de Faria, profissional que exerce a função há cerca de 10 anos à frente de importantes produções da TV Globo, o técnico deve e precisa atualizar-se com o momento estético atual. “Somos os responsáveis em traduzir as demandas de nossa área num contexto contemporâneo e criativo. Esse ‘mindset’ refletirá em todo o escopo de atuação. Desde a assessoria e relação com o diretor até na forma como serão criados os arranjos das músicas”, comenta.

Ainda de acordo com Alexandre, os softwares estão evoluindo muito rapidamente, fomentando livrarias de samplers cada vez mais interessantes. Neste sentido, o produtor precisa estar “antenado” constantemente com a tecnologia envolvida em todo o processo. “Seja usando instrumentos virtuais, acústicos ou um híbrido dos dois, o padrão de qualidade do resultado final está cada vez maior. Eu escuto muitas mixagens minhas (e de outros amigos) de anos atrás e a diferença é gritante. Acredito que, em parte, isso tenha a ver com a mudança do conceito de mixagem atual. Estamos vivendo o que é conhecido como ‘the Loudness war’ (a guerra de Loudness). Concordando ou não, acabamos nos modificando também”, avalia.

Segundo o produtor musical João Jacques, à frente de produções da TV Record desde 2007, quando se trabalha produzindo um artista para um disco, o foco, na maioria das vezes, é a música propriamente dita. No entanto, no audiovisual, o trabalho acaba se estendendo a outros departamentos, exigindo do profissional um olhar de 360 graus da produção em questão. “Essa troca é ótima, mas exige muita atenção com os outros setores. Não consigo colocar uma ‘big band’ em uma cena de novela se o cenógrafo não projetar um palco que comporte todos os músicos, se o departamento de arte não fizer o dressing do palco, se a produção executiva não pagar os cachês, e por aí vai. O produtor não fica mais em uma zona de conforto cercada só por músicos, como na gravação de disco em estúdio. Temos que lidar com profissionais de diferentes backgrounds, e isso gera uma ótima troca. Cooperação é o mais importante no audiovisual”, observa.

Música para TV

Ao abordar os desafios e peculiaridades no trabalho com música para TV, Alexandre cita três pontos como fundamentais: velocidade, flexibilidade e versatilidade. “Velocidade, pois tem que ser rápido e produzir algo bom para o dia seguinte (ou antes) com frequência; flexibilidade, já que é parte de um processo delicado da produção e seguir por um caminho artístico queAlexandre de Faria já foi definido por outro; e versatilidade, já que eventualmente o produtor se envolverá em trabalhos que exigirão um conhecimento abrangente de estilos musicais”.

Alexandre explica que no trabalho com música para TV existe uma “camada a mais” entre o produto final e o telespectador. Ou seja, o material foi escrito por alguém, e será dirigido por outrem. Assim, a necessidade de saber traduzir a visão do diretor é o diferencial. “O diretor é o ‘regente’ da obra. Ao sentir sua intenção com o trabalho, você incorpora a versão dessa realidade artística e a imprime musicalmente. Acredito que seja o maior desafio dessa área da produção musical”, fala.

Desafios

Para citar alguns momentos marcantes da carreira, João Jacques comenta sobre o trabalho que desenvolveu na minissérie Plano Alto, de Marcílio Moraes, dirigida por Ivan Zettel. A obra tratava de política, com enfoque nos protestos ocorridos no Brasil, em 2013. “A música de protesto faz parte da história do nosso País. Por isso, não queríamos deixar as mais emblemáticas de fora, mas precisávamos dar uma cara atual à trilha”, ressalta. “Compor a música original da série foi muito desafiador, principalmente para as cenas dos Black blocks e manifestações. Nelas, mesclamos takes gravados com imagens de arquivo dos protestos reais. Ficou tudo muito crível e o cuidado com a música original foi redobrado para que ela fosse apenas um complemento. Saber ‘tirar a mão’ é essencial. Nem sempre sua música é a estrela do show”, completa.

Com a maior parte dos trabalhos para TV realizados em dramaturgia, Alexandre confessa que fazer novela de horário nobre é a coisa mais “desafiadora que existe”. “Apesar de ser gratificante ver o seu trabalho no ar, trata-se de uma grande demanda, responsabilidade e tensão. Afinal, são 24 horas, 7 dias na semana, por muitos meses de atenção voltados a isso”, pondera.

“O caminho da especialização em ‘música para imagem’ é o grande ‘filão’ atual aos interessados na área de produção musical para TV”, indica Alexandre, que logo ratifica: “É necessário muito estudo. Sugiro muita leitura, conhecimento de repertório erudito e popular a fundo e estudo da teoria da música e afins, para reciclagem e aprofundamento”.

A TV em última instância

Produtor do quadro Os Iluminados defende profissional multidisciplinar nas produções para televisão.

Com mais de 25 anos atuando como produtor musical da TV Globo, Paulo Henrique Castanheira, ou PH Castanheira, responsável pelo quadro Os Iluminados, do ‘Domingão do Faustão’, Paulo Henrique Castanheiraconta o desafio que é desenvolver este projeto atualmente. O quadro é importado de um formato alemão que se chama Keep your light shining. De acordo com Castanheira, normalmente, esses formatos comprados vêm com instruções do caminho para a realização do jogo. Todavia, com o quadro em questão, a realidade foi diferente.

“Eu só tinha os vídeos da temporada alemã e das Filipinas para me basear. Não tive outro caminho senão criar o meu método de trabalho. Minha experiência de ter produzido todas as edições do Fama me ajudou bastante. Primeiro analisei as regras do jogo, percebi o desafio da tonalidade. Depois as divisões das músicas em partes iguais, que não são divisões em estrofes, mas, sim, em tempo. Percebi que tinha que fazer um estudo do repertório, analisando as canções que se prestavam para serem divididas pela quantidade de participantes, até a final com o grande dueto. Decidi estudar tonalidades centrais para cada música que atendessem à maioria dos cantores – mesmo sabendo que só isso não adiantaria, e que eles em vários momentos teriam que improvisar”.

Para realizar o quadro, Castanheira formou uma equipe que conta com doze músicos, dois produtores assistentes, um arranjador de apoio, um técnico de gravação, um técnico de mixagem, um técnico de monitor, três assistentes e três preparadores vocais.

Polivalente

Paulo Henrique Castanheira explana que o trabalho de produção musical em TV se beneficia da experiência que o profissional tem em produções fonográficas, com artistas em shows, teatro ou cinema. Segundo ele, o trabalho em TV tem a capacidade de abranger a maior parte das especialidades que o músico possa ter. Assim, além de tocar, precisa arranjar e compor. Daí a necessidade de desenvolver a ‘polivalência’ na área.

“Os clientes dos produtores musicais são os diretores. É importante ter a empatia, a admiração mútua e, principalmente, a confiança do diretor com quem você está trabalhando, e procurar entender suas necessidades, sendo o mais colaborativo e direto possível na execução do trabalho”, diz. “Toda produção sempre exige sua total atenção e cuidado, mas se tivesse que destacar algum tipo de atenção extra, seria em formatos novos. No meu caso, já vivi muitas experiências variadas e isso me concede um arsenal grande de know how para criar a minha logística de trabalho. Sem contar que, hoje em dia, temos acesso a ferramentas de pesquisa muito eficientes na internet. Com um roteiro, sinopse ou às vezes somente um bom papo com o roteirista ou o diretor, pode-se estruturar o método de trabalho para melhor atender ao produto”, sintetiza.

 

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