Mixagem: Menos é mais

Menos é Mais

Ao se falar de mixagem, muito é discutido sobre técnicas, das mais simples às mais complexas, sobre como fazer soar melhor e tornar mais claros e definidos os vários elementos de uma música. Até aí quase ninguém discorda. Muito se discute sobre qual é o “pulo do gato” em uma mixagem. O que faz uma mixagem soar realmente bem? Muita ou pouca compressão? Muita ou pouca equalização? Equalização subtrativa ou aditiva? Muito ou pouco efeito? Colocar pre-delay ou não reverb? Utilizar processamento paralelo? Inserir ou não compressão e equalização no master bus?

É claro que todos esses passos acima, se utilizados de maneira correta, irão contribuir para a sua mixagem soar melhor, mas a pergunta é: qual deles é o “pulo do gato”? Resposta: nenhum! E a resposta também não é: “são todos igualmente importantes”. O “pulo do gato” está no arranjo! Isso mesmo. Sem levar em consideração a qualidade da composição e da performance, pois não há técnico de som no planeta que faça uma música ruim ou mal executada soar bem. O pulo do gato está no arranjo. Em um arranjo bem elaborado, os instrumentos e as partes da música dialogam entre si, especialmente em um sistema de complementação ou pergunta e resposta. Por exemplo, se um instrumento de solo, como um sax, guitarra solo, gaita etc. toca durante a voz, este instrumento irá procurar executar suas frases durante as pausas na melodia da voz, ou então harmonizar com a mesma, seja em uníssono ou abrindo intervalos.

Mesa de Som

Na verdade estamos falando de espaço. Para que os instrumentos fiquem claros, a música precisa de espaço. E por espaço podemos entender que nem todos os instrumentos devem tocar simultaneamente durante toda a música. Se no arranjo já foi planejado este espaço, melhor. A sua mixagem se tornará muito mais fácil, e provavelmente soará melhor no final. Porém, em certas situações temos que lidar com músicas com muitos canais tocando ao mesmo tempo. É neste ponto que temos que balancear as técnicas com o arranjo. Podemos, sim, nos utilizar de várias técnicas para tentar deixar tudo definido, mas a pergunta é: não é mais fácil e melhor tirar alguns elementos da música? Simplesmente mutar alguns canais em determinados trechos?

É claro que se trata de mudar o arranjo, pois uma guitarra que estava tocando em determinado trecho não estará mais. Neste caso, se não for um disco solo seu e houver mais gente envolvida no projeto, seria bom perguntar o que as outras pessoas acham. Mostre as duas opções para a banda (com e sem aquela parte) e pergunte se gostaram. Quando for mostrar a opção, não toque somente o trecho onde foi feita a alteração. Toque desde um pouco da parte da música anterior à alteração e deixe continuar tocando um pouco mais até a parte posterior à alteração, de modo que seja possível relacionar as outras partes ao efeito causado pela alteração.

Frase

Uma situação bem comum é quando temos a sensação de que a música não cresce no refrão como deveria. Costuma dar certo retirar alguns elementos da parte que antecede o refrão. Outra situação comum é arranjo redundante, onde instrumentos com a mesma faixa de frequência executam arranjos parecidos. Em uma banda de rock com duas guitarras, essa dobra colocada em estéreo pode ser benéfica, mas em um arranjo com mais elementos, pode se tornar desnecessária, e em uma mixagem, tudo o que é desnecessário se torna contraproducente.

Em um arranjo sinfônico, mesmo que uma orquestra completa tenha aproximadamente 80 elementos, raramente todos os instrumentos tocam ao mesmo tempo. E quando ouvimos uma sinfônica tocar ao vivo, estamos escutando uma “mixagem” que é feita pela condução do maestro, pela dinâmica dos músicos e, principalmente, pelo arranjo, que já traz definido qual instrumento toca em determinado momento. E é justamente por causa disso que a música clássica tem uma dinâmica fora de série, que vem sendo perdida pela música pop, especialmente nos últimos anos.

Em uma mixagem com 16 canais de guitarra, 8 canais de teclado, 6 dobras de voz, 4 canais de violão, 4 dobras para cada instrumento de percussão, 12 canais de backing vocals, temos que nos perguntar se tudo isso é realmente necessário para a música.

É claro que o que é realmente necessário para a música é um pouco subjetivo, mas eu costumo me orientar da seguinte maneira: para mim o ponto ideal é o ponto onde se eu retiro um elemento, sinto que a música ficou vazia, e se eu acrescentar um elemento, sinto que não está fazendo muita diferença. É claro que este ponto também é subjetivo. Pode ser que a percepção deste ponto varie de uma pessoa para outra, mas o raciocínio permanece válido. Só um ponto a se tomar cuidado: se ao retirar um instrumento você não sentir muita diferença, pode ser porque ele seja redundante no arranjo, ou então por que ele esteja baixo demais na mixagem. Preste atenção neste detalhe antes de decidir retirar o elemento da mixagem.

Não tenha medo de exagerar para menos. Em algumas situações eu já cheguei ao ponto em que deixar somente voz, bateria e baixo foi a melhor solução para aquela parte. Se você prestar atenção em músicas feitas e mixadas por produtores top, você irá perceber que existem muitos elementos, sim, mas que eles não tocam juntos o tempo todo. Para fazer isso, sugiro escutar as músicas com um par de headphones de boa qualidade. Desta maneira será mais fácil perceber algumas nuances, sutilezas e detalhes do arranjo e da mixagem.

Em matéria de arranjo ou mixagem, um velho ditado popular pode ser aplicado sem medo de errar: “quando um burro fala, o outro abaixa a cabeça”!

Para saber mais

redacao@backstage.com.br

Matéria publicada na edição 247 (Junho 2015) da Revista Backstage

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